Entrevista com a Profa. Anayansi Correa Brenes
Por ONG Amigas do Parto   
12 de Junho de 2007
Vencedora Prêmio Nacional Amigas do Parto 2007
Categoria Outros Profissionais Socióloga, professora universitária e coordenadora do Projeto PASSAGEM no HU/UFMG
Belo Horizonte (MG)
Faculdade de Medicina da UFMG
brenes18@yahoo.com.br e brenes@medicina.ufmg.br


Qual sua profissão e quando foi que você decidiu por ela? Por que?
Sou Socióloga de formação. Decidi este caminho aos 17 anos de idade quando pude trabalhr numa experiência de humanitária, na Cidade de Puerto Armuelles, na fronteira do Panamá com a Costa Rica. O trabalho voluntário foi uma oportunidade aberta pelo goberno do General Omar Torrijos Herrera que me permitiu viver e conhecer como atuar na comunidade ( região das BANANAS) e em particular, com as pessoas mais pobres desta região, numa ação de cunho social.

Como você vê sua função?
Hoje em dia sou professora Universitária mas posso dizer que nunca perdi o olhar do trabalho comunitário com meus alunos sempre motivando-os em ações de extensão junto a comunidades e populações carentes. Meu lugar é privilegiado e ao mesmo tempo estratégico. Tenho um profundo respeito pela formação médica e em saúde e nesta perspectiva reforço trabalhos de cunho ético, associativo ( D.A) e cooperativismo entre o estudantado.

Trabalha em hospital? Se sim, como vê seu trabalho neste ambiente?
Meu trabalho como docente é numa Faculdade de Medicina, exatamente no departamento de Medicina Preventiva e Social. Mas as ações dos alunos podem ser realizadas externas a esta instituição. Em particular, presido um projeto sediado no Hospital Universitário ou Escola. (HC/UFMG)

Conhece as Recomendações da OMS? Quais delas incorpora em sua prática e quais lhe parecem inapropriadas para sua realidade local?
Sim. Tenho sido uma lutadora desde meu local de trabalho e vida no fortalecimento destas ações. Conheci a “CASA DO PARTO 9 LUAS , LUA NOVA” sediada em Niterói. Na época fiz contato e uma certa amizade sendo a primeira profissional que se empenhou em introduzir para dentro da nossa Faculdade de Medicina e em Belo Horizonte, estas experiências.

No Período de 1996/97. Nestes dois períodos organizei eventos locais e regionais convidando os profissionais da saúde em Belo Horizonte que atuavam tanto na G.O como na enfermagem com o cuidado das mulheres durante a gravidez e parto. Os Eventos locais certamente fortaleceram os vinculo de muitos dentre eles dentro dos programas da humanização. Neste período, experiências locais começaram a florescer tendo a bandeira do que passou a se denominar como a Humanização em pauta. Sobre as recomendações da OMS eu conheço todas estas e todas são ensinadas para os alunos de Medicina do 1º ao 4º período. Mas a pratica Hospitalar tem um corpo separado e assim este tem sua própria concepção de rotina. Pode ser que até por razoes da humanização esta rotina esteja sendo controlada ou mudada: No caso de nosso projeto a grávida vem sendo acompanhada por alunos em atuação voluntária. Esta relação o nosso aluno beneficia a grávida com este acompanhamento. Não só a Auxilia na compreensão do que esta sendo realizado no corpo delas bem como estabelece um dialogo intra-institucional por ela junto ao médico. Este dialogo e esta presença possibilitam uma certa observação, um certo questionamento caso as coisas não sejam como pregadas na OMS, uma fala tranqüilizadora para a grávida quando Acompanhante desta mulheres em todas as consulta da gestante, no pré- parto e sobretudo no parto. E uma certa consolidação qualitativa de seu acompanhamento durante todo o período uma vez que o aluno voluntário passa a ser a referencia e o ponto de costura com a atenção médica em mudança. A amizade entre mãe e aluno propicia um vinculo de afeto, que fortalece uma nova Relação profissional muito apreciada por todos e na sua fala muda a óptica deste, no futuro profissional.

De que forma se dá seu engajamento no Movimento pela Humanização?
Varias maneiras. Como mulher cidadã.Participo hoje me dia das reuniões do Conselho de Saúde do Município de BH. Como professora, criando e fortalecendo projetos dentro da Instituição Médica e hospitalar no caminho da HUMANIZAÇAO DO PARTO. Na pesquisa cientifica quando fortaleço a investigação e produção cientifica sobre a Historia dos profissionais na atenção ao parto. ( séc XVIII,XIX ) com livros publicados neste tema. Como Membro da Revista Francesa Lês Dossiers de l´Obstetrique ( na França) voltada somente para a luta pela Humanização. Como coordenadora do NEMS/ núcleo de estudo Mulher e saúde, sediado desde 1988 na Faculdade de Medicina e que propicia a criação da REHUNA MG, em 2003. Convidando a Dra Daphne Rattner nesta reunião. Os rehunidos estão desenvolvendo seu trabalho de forma autônoma. O projeto Rehuna MG não fortalece a centralização. Todas as atividades são apoiadas. Em maio de 2000 trabalho na articulação para criação da ABENFO/MG junto com a Sra Roseni R. Sena no evento Internacional O CORPO DAS MULHERES, que teve a presença da Dra Michelle Perrot, nossa convidada e presidente do evento. Como membro do Movimento Cidadania e Nascimento sediado em Paris, o qual luta pelo Direito a Escolha das Mulheres na hora da atenção a seu parto e nascimento de seu bebe.

Qual é sua visão da situação obstétrica no Brasil?
Esta seguiu o modelo de Concentração de Gestantes em hospitais nível 3. Este modelo produz mais sofrimento para as usuárias da Maternidade. Perde-se a referencia da atenção materna local. Mas do lado da Humanização, vemos a nível hospitalar uma crescente atuação do equipo de enfermagem e o desenvolvimento de ações de cunho político e da mentalidade que sustenta o parto normal ou vias baixas.

Como você vê as estratégias adotadas e quais são suas sugestões?
Penso que a Humanização como ação burocrática esta tendo sucesso. Na pratica não sei se esta mudando a consciência do nascimento. Fortalecer novos espaços de nascimento como as CASAS DE PARTO , o uso de praticas alternativas ( menos invasivas) e o uso de plantas pode vir a reforçar ainda mais o viés da humanização do que estas sendo implantada em grandes hospitais. O empoderamento da paciente poderia ser mais fortalecido nas praticas da Humanização. E a participação das mulheres e gestantes como cidadãs nos conselhos dos hospitais, se apropriando do processo e não ficando meramente como expectadoras deste.

Trabalha em equipe? Quais são suas considerações a respeito?
Sim mas muito pouco. As responsabilidades estão definidas em espaços diferentes. Eu na Faculdade, coordeno o projeto e ( o NEMS) formo aluno na pratica da humanização no atendimento à paciente e o seu parto. Formação teórica e de seguimento da experiência. Monitoração do aluno e da mãe atendidos.

Como avalia a atuação dos demais profissionais na equipe?
No caso do projeto Passagem, nossa equipe da instituição do HC encontra-se Fragmentada. Nos trabalhamos com a docência e chefia da Maternidade e ambulatório do pré-natal. Pontualmente nos reunimos para discutir o trabalho e hoje em dia , deste projeto surgiu a motivação de criar no Espaço hospitalar João XXIV ( venda nova) a atenção médica a gestante e seu parto simplificada. ( maternidade de Risco baixo)

Já acompanhou o nascimento de um bebê? O que lhe passa pela mente?
Sim em varias ocasiões. Meu olhar tem sido histórico. Inicialmente houve um sentimento de emoção muito grande. Nestes primeiros contatos na hora do parto foram em cidades do interior de Minas. Teve a oportunidade de acompanhar, a convite, parteiras tradicionais. Bem como na Instituição médica local. Enfim, segundo este olhar esta situado , a experiência ganha novas cores. Hoje em dia estudo o nasciemento e digo a meus alunos da importância de olhar para o que se passa. A cena não é apenas ( uma mecânica do nascimento ou coisa parecida) não banalizo este momento. Chamo a atenção aos estudos do Dr Jean Maire Delassus sobre Maternologia. Neste momento podemos ver na forma de um bebe, a chegada de um outro. Por vezes sua presença fica muito clara aos olhos de todos.

O que mais a emociona em um parto?
O processo que tem suas lógica própria. Não sendo uma mecânica posto que não se trata de maquinas, mas uma certa sincronia e harmonia entrem a mãe e o bebe.

O que você mais teme em um parto?
Temo o medo do outro passado para a mãe. Temo o medo da mãe, que a marca e a pode fazer perder este momento mágico. E temo que este temor a faça complicar um processo que poderia ser uma sinfonia. Temo a presença de pessoas que não respeitam e que lidam com o processo como se fosse algo muito singelo.

Do seu ponto de vista, o que é que ajuda o andamento de um trabalho de parto e o que é que atrapalha?
O que ajuda ao trabalho de parto é a alegria da mãe, sua tranqüilidade e esta se apropriando do processo. O que atrapalha é esta deixar outros fazerem ou viverem este momento que é único dela.

Qual é sua atuação neste processo?
Eu sou uma curiosa. Professora Universitária que pesquisa com o olhar respeitoso este momento.

Como você vê a questão dos altos índices de cesáreas no país? É verdade que as mulheres preferem cesáreas?
Os altos índices de cesariana não estão relaicionados à preferência das mulheres no parto. Não confirmo esta relação de tendência. Em 1990 realizei pesquisas sobre este tema e o que nos vimos foi o seguinte:mulheres desejando ter seus filhos como únicos. Se preparando para este momento e o médico se apropriando do processo que é delas. Esta falha trousse medos para as futuras mamas e com isto uma certa submissão à pratica cesariana. Estas constatações foram divulgadas em reuniões com os grupos feministas. Na ocasião Debe Rowgo, da Women Health´s coalition (NY)me fez esta mesma pergunta. Pesquisas a nível nacional, para a época, apontavam para esta certa preferência das mães na hora do parto. Eu questionei.
Na experiência do nosso projeto PASSAGEM , esta preferência não se confirma. O que se confirma é a mãe (ou gestante ) sentir-se forte ou frágil para enfrentar seu parto normal no hospital. Por vezes suas razoes, que não são razoes médicas, acabam fortalecendo a intervenção com cesarianas.

Você tem filhos? Acompanhou seus nascimentos? Esta experiência modificou a sua maneira de entender o parto? Como?
Sim tenho um filho. Hoje com 27 anos. Esta experiência mudou minha vida de varias maneiras: inicialmente humanizando-a . Eu tinha uma vida forjada como projeto, com metas etc. Meu filho bagunçou. Mas desde que foi programado (desejado) sempre me vi como aborigem. Parideira e parindo de cócoras. Nunca vi problemas no parto. Sempre pensei no prazer de ser mãe. Meu parto foi natural por vias baixas. Eu cheguei na maternidade porque não houve uma pessoa para fazer meu parto em casa. Na maternidade senti o processo da violência que se esconde por traz da técnica. Infelizmente vivenciei todas elas: Toques desnecessários; lavagem intestinal por uma auxiliar de enfermagem muito hostil; não houve necessidade da raspagem ( eu me depilei antes); não vivi violência verbal pois meu medico defendia o parto natural; mas este fez uso do soro associado a ocitocina ; Fui colocada na maca hospitalar; passei fome e sobretudo sede. Afortunadamente meu filho decidiu nascer 30 minutos depois. A partir de todas estas vivencia me tornei uma lutadora pela des medicalização do parto. Nome dado a esta luta na época.

Há algum (outro) evento/experiência em seu trabalho que marcou sua trajetória profissional e sua visão do parto?
Sim, minhas pesquisas históricas. Visitei os arquivos de parteiras famosas e neste levantei outra maneira de vir ao mundo.

Qual o seu sonho profissional?
Comprar uma montanha. Para nela trabalhar os cuidados do homem com a natureza. Neste processo bebes nascendo nela.

O que você gostaria dizer aos seus colegas? Que colegas?
Aos que me apoiaram e também são favoráveis ao parto natural, obrigada pelos apoios e parcerias.

O que você gostaria que as parturientes soubessem? (quer mandar uma mensagem?)
Sim, quero que elas saibam da importância do momento vivido na gravidez e no parto. Chego a pensar que é necessário se preparar mais ainda. Compreender que o outro por vezes, não é exatamente o que nos esperávamos. Por tanto, prepara-las para esta realidade, que por vezes pode soar dura. Mas que sem duvida nenhuma, vive-la sem medos e realizando todos nossos desejos, pode fazer que desta experiência , saia uma nova mulher e mais fortalecia. Vencendo a si mesma e a seus medos!.Se transformando numa Mãe moderna e madura, com respeito à individualidade de ambos.�
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