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Empoderando as Mulheres. As Deusas na Gravidez, Parto e Pós-Parto PDF Imprimir E-mail
Por ONG Amigas do Parto   
07 de Abril de 2009

 

Empoderando as Mulheres.
As Deusas na Gravidez, Parto e Pós-Parto

de

Adriana Tanese Nogueira

 

À venda em versão virtual por R$ 11,29 e na impressa R$ 37,64

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Sete são as Deusas tratadas. Cada uma abre uma perspectiva sobre a identidade feminina (com exercícios práticos no final dos capítulos), apresentando temas específicos e modalidades de agir. Héstia cria o ninho. Perséfone promove introversão e centramento, graças aos quais, Deméter, a maternidade plena, pode nascer. Afrodite ajuda a compreender a sensibilidade tão características das grávidas. Atena dá planos e estratégias. Hera estimula a autonomia e auto-estima. Por fim, Ártemis, a do “bom parto”, abre as portas para um parto ativo, saudável e empoderador. Citações e depoimentos encontram-se ao longo de todo o livro.

Adriana Tanese Nogueira é filósofa (Università degli Studi di Milano), psicoterapeuta pós-junguiana (Silvia Montefoschi, Itália) e cientista da religião (Ciências da Religião, Puc/SP). Idealizou e fundou em 2003 a ONG Amigas do Parto, que coordena, e criou o site www.amigasdoparto.org.br (2004). Desde 2007 administra e leciona em cursos à distância junto a equipe multidisciplinar e internacional. É co-autora do livro “Mulheres Contam o Parto” (Italia Nuova, São Paulo/Milão). Mora atualmente na Flórida, EUA, com sua filha, Beatriz, nascida de parto domiciliar e o gato, Gattaccio. 


Introdução do livro

Ao ver-se grávida e procurar por um pré-natal, a mulher hoje se depara, geralmente, com um modelo obstétrico no qual a relação com o médico é uma via de mão única. Cabe a ela acatar o que ele prescreve e orienta, ou ir embora. Insegura quanto aos reais perigos que ela e seu bebê possam vir a correr, sem apoio social, e muitas vezes familiar, a grávida acaba por aceitar tudo o que o profissional falar. Caracterizamos a imposição, às vezes velada, outras agressiva e direta, da “verdade” do médico e de sua forma de atuação, baseada no uso de tecnologia frequentemente desnecessária, como “autoritarismo relacional e tecnológico”.

Esta situação é o resultado de muitos fatores históricos e sociais. Sabemos do poder médico em todos os tempos e contextos, seu papel é o de restaurar a saúde, e possivelmente salvar e a vida. É inégavel o valor que sua função tem para todos. Entretanto, deve-se ter a lúcidez de observar que, sobretudo hoje em dia, médicos obstetras nem sempre fazem o melhor para as mulheres e seus bebês, influenciados como são pela insuficiência de suas formações acadêmicas e manipulados por questões de poder pessoal, corporativo, econômico e político.

A este quadro soma-se a dolorosa e sempre-viva questão de gênero que coloca as mulheres em patamares diferenciados daqueles masculinos. Se em muitos campos as mulheres ganharam espaço e conquistaram poder social, quando o assunto verte sobre questões tipicamente femininas, como gravidez, parto, aborto, menstruação e maternidade, eis que os antigos preconceitos determinam comportamentos e entendimentos. O reflexo desta realidade social, introjetada durante séculos, se pode observar na timidez com as quais elas mesmas lidam com essas questões. Muitas vezes, no lugar de mil perguntas, dúvidas e desejos só restou o silêncio.

Apesar da diferença de trato conforme a quantidade de dinheiro que uma mulher possui – fazendo com que quem recorre ao SUS tenha um tratamento muito mais duro e frio do que aquela atendida pelo médico particular – raspando por trás das aparências, veremos que o modelo de relação é padrão. Que seja com rudeza ou luvas de pelica, no final o resultado é o mesmo: sua autonomia e auto-confiança lhe são sonegadas. A mulher é rotineiramente desrespeitada em sua sabedoria íntima e em suas necessidades femininas. É no lugar de incompetente a decidir e à dar à luz que ela é colocada.

Este livro está voltado para o empoderamento feminino a partir de suas raízes mais profundas. Queremos promover não somente a consciência dos direitos da mulher, de seu valor como ser social que participa da construção do mundo no qual vivemos, mas buscamos ir mais fundo, mais dentro, mais no íntimo. Propomo-nos a falar as duas linguagem que regem toda comunicação e identidade: a da razão e a dos sentimentos. Idéias, mesmo que corretas, não são suficientes para modificar um comportamento. É preciso atingir a vivência, jogando luz sobre os movimentos internos que levam para uma direção ou para outra, apesar ou não das intenções proclamadas. A consciência é um processo que não se engendra na racionalidade pura, mas nasce da confluência da carga emocional e sentimental com a percepção esclarecedora e reveladora. Da união dos opostos (internos) se faz luz.

Para obter este resultado, é preciso lançar mão da psicologia. E não de qualquer uma, mas daquela que fez do conhecimento dos meandros e das dinâmicas interiores seu pilar de compreensão da psíque humana. Esta abordagem surgiu com Carl Gustav Jung (Suiça, 1875 – 1962) e foi desenvolvida, em linhas diferentes, por seus discípulos e seguidores. Em todas elas, o conceito de arquétipo sobreviveu por ser um instrumento que permite compreender a psíque humana. Como explicarei no capítulo seguinte, arquétipos são padrões de comportamento, tendências a seguir um roteiro pré-determinado em suas grandes linhas. Oferecem visão de mundo, modo de sentir e de se relacionar, entendimento da realidade e escolhas.

Todos temos a experiência de comportamentos que sabemos errados e que, entretanto, não conseguimos mudar. Todos conhecemos o medo que mudanças e questionamentos fazem surgir. Longe, porém, de querer criar um determinismo para nossas atitudes, a compreensão dos arquétipos permite aquela consciência mais profunda que faz de alavanca para o salto de consciência.

Uma das formas de visualizar os arquétipos é olhar para os mitos religiosos e seus protagonistas. É isso que faremos neste livro. Voltaremos o olhar para as Deusas da mitologia grega e veremos como elas estão presentes na gravidez, no parto e no pós-parto. Resgá-las resulta na valorização de diferentes (e até contrapostos) aspectos da psíque feminina que, quando conscientizados e harmonizados, ajudam a mulher a entender-se melhor, definindo com clareza o que quer, conectando-se com seus instintos e centrando-se. Este processo faz da gravidez e do parto instrumentos de empoderamento pessoal e familiar, promovendo uma virada criativa e enaltecedora de sua vida.

É preciso perceber, quando se fala em humanização do parto e nascimento, que o que está em jogo não é meramente fazer vencer nossa vontade contra a do médico, ou de quem quer que seja. Se trata de enobrecer a maternidade e assumir com consciência e liberdade nossas escolhas, resgatando a auto-estima num campo tão distinto e distante daquele da produtividade, dos números, do consumo e da superficialidade no qual vivemos mergulhadas no dia-a-dia. Se trata da promoção de uma humanidade na qual valores e princípios femininos sejam tão respeitados e ouvidos quanto os masculinos. Resgatar o poder de parir é muito mais do que poder realizar um ato fisiológico e fisicamente saudável para nós e nossos filhos. É a vitória do que há de melhor do humano, da mulher como ser de valor, do bebê tão impotente quanto precioso. É o triunfo do respeito à vida e ao sagrado da vida sobre a cegueira, os interesses corporativos, monetários e comerciais.

Acreditamos que esta contribuição ao processo de humanização cabe, sobretudo, às mulheres. É tempo de dar voz e vez ao que sempre ficou calado no peito, no ventre e nos olhos, transformando cistos, miomas, nódulos e lágrimas em palavras, discursos, visão e ação.

Falar das Deusas é colocar o feminino no patamar do divino, rompendo o muro do monolitismo e descobrindo diferentes e, às vezes, contrapostas facetas, tendências, perspectivas em nossas vidas de mulheres, sem medo de ser contraditórias, mutáveis e indefiníveis. Entrar no mundo das Deusas é ingressar num espaço aberto e multicolorido, onde tudo é possível, inclusa nossa singular unicidade.

 
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