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Parto domiciliar na água com visão final PDF Imprimir E-mail
Por Adelise Noal Monteiro*   
09 de Março de 2009
Nascimento de Maria Luisa, mãe primigesta, parto rápido e iniciático.

 

“E isso será para ti um sinal de Totalidade e de Unidade”
Último sonho descrito de C. G. Jung

 

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Recém-nascida de Maria Clara e Taua
Data de nascimento: 21 de fevereiro de 2009 - Kin lua harmônica vermelha.
Hora de nascimento: 9:05 a.m.
Cidade: Porto Alegre.
Peso: 3.200gramas.
Comprimento: 52 cm.
PC: 35,5 cm.
PT: 36cm.
Apgar no primeiro minuto: 8.
Apgar  no quinto minuto: 10.
Médica parteira: Adelise Noal Monteiro
Auxiliar de enfermagem: Claudete Borges

Nasce Maria Luisa, parto na água, em casa. Mais uma mãe que vence a visão de mundo coletiva que diz: “O certo, o mais seguro, o melhor é nascer no hospital.” Mais uma mulher que busca empreender esta grande aventura da individuação feminina através de um caminho ditado pelo seu interior. Mais um exemplo a ser contado e seguido na perspectiva humanista de que cada mulher deve encontrar a maneira melhor, mais segura e mais correta de vivenciar o coroamento de sua gestação.

C. G. Jung, diz que “não há técnica nem doutrina terapêutica de aplicação genérica”, visto que cada caso tem sua especificidade. O mais importante é estabelecer uma relação de confiança, e não demonstrar uma teoria clínica. Para Jung, todo tratamento é diálogo e encontro. A questão não era treinar ou educar de acordo com algum tipo de método. Em vez disso, sempre tentava ajudar a pessoa a encontrar a paz consigo mesma por meio das mensagens enviadas pelo seu próprio inconsciente. Eu sentia ser esse o papel do obstetra ou da parteira: assistir a vinda à luz do dia de um processo natural,  o processo de penetração no próprio Self. Jung fala que o médico precisa dominar uma técnica e logo em seguida abandoná-la para poder mergulhar no espaço secreto de onde se pode dar a mão e trazer uma pessoa de volta; tratar e curar este é o ofício, esta é a arte.

Então vamos aos fatos que levaram a este nascimento.

Maria Clara, 21 anos, primigesta desejou um parto diferente do que se vê hoje, mas igual ao que cresceu ouvindo de sua mãe e avós; mulheres que tiveram filhos com parto normal em casa. Descobriu o site: www.amigasdoparto.org.br passou a se informar sobre o movimento de humanização do parto, entrou em contato com Adriana Tanese Nogueira e assim nos conhecemos, primeiramente através de contato por email. No período do pré-natal, construimos juntas as condições adequadas visando o parto na água em casa. Seu objetivo maior era desenvolver a capacidade de ser ativa em seu próprio trabalho de parto. Sonhou com o parto na água! Perguntou e encontrou as respostas que precisava.
Dia 20 de fevereiro na sua última consulta antes do parto, teve inicio o uso do fitoterápico em gotas Banisteriopsis caapi e Psichotria viridis. E, na madrugada do dia 21 de fereveiro começaram as contrações dolorosas que culminou com o nascimento de Maria Luisa sete horas e meia depois, tempo em que fez uso do Santo Daime em gotas. Um trabalho de parto rápido para uma primigesta: inicio 1:30hs, nascimento, 9:05. Oito horas para os três periodos do trabalho de parto. O segundo período, periodo expulsivo, teve duração de mais ou menos uma hora, foi quando Maria Clara entrou na piscina com água na tempertura de em torno de 37 graus. A bolsa permaneceu íntegra até o coroamento da cabeça, o que caracterizou uma saida rápida, pois o líquido amniótico permite que aconteça um deslizamento perfeito. Sai a cabeça e o corpo se despreende como se viesse descendo uma cachoeira. Logo, a bebê foi colocada no colo de sua mãe, liberada as vias aéreas, clampeado o cordão umbilical.
No período expulsivo alguma coisa que podemos chamar de mágica, sempre acontece. Na linguagem Junguiana este período corresponde à constelação máxima do arquétipo do nascimento. Nestes momentos são invocadas as imagens divinas em que confiamos, as figuras parentais que nos foram referências, especialmente as mães, todas as mães. As mães divinas, e aquelas que nos antecederam em nossa herança biológica.

O tempo cronológico é suspenso e entramos no fluxo arquetípico, como diz Mircea Eliede, historiador de religiões, saímos do tempo profano e entramos no tempo sagrado. Cada contração é um giro dentro do prisma onde estão os componentes das vias instintivas de um lado e arquetípico/espirituais de outro.

A criança em seu trajeto de descida... girando...

Lembrando a música de Chico Buarque, Roda Viva: ”Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião. O tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração...” Entramos neste giro, compartilhamos! Até que um grito vindo das entranhas maternas libera a energia máxima anunciando a passagem da cabeça pela porta estreita deste lado de cá da vida. Um instante, um segundo, como nos ensina Buda, a iluminação acontece num instante. Assim, se faz presente a luz da nova vida, germe da nova consciência que virá no decurso do tempo.

O ambiente aquático e substituído pelo ambiente aéreo. A primeira respiração! E a vida diz: Louvado seja!!!

Agora é preciso aquecê-la. Tão pequena, tão frágil... mas de grande poder!  Um espaço de tempo para os festejos e logo atenção, porque ainda temos a saída da placenta. Para isso acontecer com perfeição precisamos da ajuda de nossa recém-nascida sugando pela primeira vez o leite materno, nutrição sagrada, laço eterno. A sucção libera ocitocina, hormônio chamado por Michel Odent de hormônio do amor, estimula a produção do leite, bem como as contrações uterinas. É o que se precisa para haver o despreendimento da placenta. A todo momento a vida nos ensina que devemos estar em harmonia, o meio interno, o meio externo e todos os seres que compõem esta paisagem. Aqui, no terceiro periodo do trabalho de parto, Maria Clara teve uma visão. Ela disse: estou vendo Jesus, e repetiu algumas vezes mais: estou vendo Jesus. Embebida de estase, ainda sem acreditar em todo o processo ocorrido.
É hora de tomar a nova vida nos braços, como na tradição das parteiras do Santo Daime, cantar o hino do Mestre Irineu “Sol Lua Estrela”, e ritualmente receber a primeira benção espiritual com algumas gotas de Santo Daime.

Nas descrições sobre parto na água a vantagem mais clara para a mulher é a diminuição das dores na contração. A falta de gravidade, o calor e a pressão da água sobre o ventre são suficientes para diminuir as dores. Outra vantagem é o baixo consumo de energia pelo organismo materno na água. As contrações são mais curtas e mais suaves,  e apesar disso, são suficientes para o progresso do parto, e até  pode ser acelerado por causa do maior relaxamento materno. Lacerações ou ruptura perineal geralmente são pequenas e  superficiais, quase nunca precisam de sutura.  O parto na água proporciona ao recém-nascido uma passagem lenta, passo a passo, da vida intra para extra uterina. O que também pude constatar neste parto.

Maria Clara não quis que fosse feita sutura da pequena laceração perineal. Apenas foi feita assepsia do local e prescrito banhos de assento e compressas com ervas cicatrizantes. Se sabe que elas cicatrizam em 3 a 5 dias após o parto e não temos registro de infecção em casos semelhantes.
Tudo aconteceu assim... A descrição por palavras é escassa diante da força da natureza, mas é preciso descrevê-la muitas e muitas vezes para ensinar e fazer lembrar a simplicidade do fluxo natural e nosso papel de coautoras.

“Salve o conforto da força, a força de Iemanjá.  Salve o comando das águas, salve a rainha do mar...”

“Sinto por vezes que estou como que espalhado por sobre a paisagem e no interior das coisas, vivendo em cada árvore, no arrebentar das ondas, nas nuvens e nos animais que vão e vêm, na sucessão das estações... Eis... há espaço para o reino sem espaço do ... interior da psique.” C. G.Jung.

Quando se alcança o TAO, o espírito do mundo e da vida eterna, os chineses dizem:
“A vida longa  floresce com a essência da pedra e com o brilho do ouro.”

Termino este relato com as mãos unidas na altura do coração e a cabeça curvada em reverência.



Referências Bibliografias
1 - O Parto na Água – Cornelia Enning
2 - Memórias Sonhos e Reflexões – C. G. Jung
3 – C. G. Jung Seu Mito em Nossa Época – Marie-Louise Von Franz

* Adelise Noal Monteiro é médica, pediatra, parteira e psicoterapeuta de formação Junguiana. Colaboradora da ONG Amigas do Parto e sua representante em Porto Alegre (RS).

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