|
30/10/2004 - Porto Alegre (RS) Melissa Nicole foi concebida em um sábado, dia 15 de fevereiro de 2004. Eu tive a certeza naquele momento que havia engravidado. Meu marido, Alexandre, me dizia que sempre sabia quando fazia os filhos, mas desta vez, quem soube fui eu.
Até pensei: "Puxa vida! Agora vou ter que esperar a menstruação para confirmar a gravidez!". E assim foi. No início de março, minha menstruação já estava atrasada, mas meu obstetra estava de férias. Como eu iria conseguir uma solicitação para fazer o Beta-HCG? Nunca fiz os testes de farmácia, sempre fiz direto o exame de sangue. Como trabalho em uma universidade, a PUC/RS, fui até o Hospital São Lucas e procurei por um obstetra que me desse uma requisição para fazer o exame.
À tarde, quando fui buscar o resultado, eu pensei: "Não, não devo estar grávida. Não POSSO estar grávida". Eu recém havia começado em meu emprego novo no final de novembro, ficar grávida neste momento era a última coisa que passava em minha cabeça. Pouco tempo antes havia almoçado com meu chefe e dito a ele que uma nova gravidez não estava em meus planos tão cedo. Aparecer grávida agora seria extremamente contraditório!
Quando cheguei no laboratório, o resultado ainda não fora impresso. Fiquei olhando a impressora funcionar, enquanto o papel era impresso. Antes que a moça o retirasse dela, eu já havia lido o resultado: a contagem dera acima de 1.400 - para não estar grávida, teria que ser abaixo de cinco. Eu não estava ligeiramente grávida, estava COMPLETAMENTE grávida. E atordoada. Não sabia como iria contar a meu marido desta gravidez inesperada - mas não menos desejada. E como contar a meus pais, já sexagenários, e que cuidavam de meu primogênito, Gabriel Thomas, que estava com 1 ano e 6 meses na época.
Desta vez, eu iria fazer de tudo para convencer meu marido para que o parto de nosso bebê fosse domiciliar. Apesar de ter tido um parto satisfatório da primeira vez, não gostei do ambiente hospitalar e não queria repetir essa experiência novamente. Mais ainda: após o nascimento do Gabriel, eu havia baixado meu plano da Unimed, que desta vez só cobria exames e consultas, estando um parto fora de cobertura. Só me restavam duas opções nada atraentes: SUS ou particular. Já que era para pagar, preferia pagar para ter meu bebê em casa, longe do hospital, se tudo corresse bem.
Ao chegar no consultório do obstetra para contar a novidade, ele já sabia, pois havia lido minha mensagem para a lista de discussão à qual sou associada contando de minha gravidez, notícia que se espalhou como fogo. Conversamos muito e falei que desta vez eu queria o parto domiciliar e que pretendia convencer meu marido para tal.
A gravidez transcorreu normalmente até a 7ª semana, quando começaram os famigerados enjôos e vômitos violentos. Vomitava dez vezes por dia, não conseguia comer nada, repugnei carne, leite e frango e muitos alimentos de origem animal. Meu pesadelo recomeçara, como na primeira gravidez, porém em quantidade e intensidades maiores. Tentei trabalhar nesse período, mas os vômitos repetidos não me permitiam, tive que me afastar por mais de três semanas. Fiquei tão fraca, que passava os dias deitada, sem forças, pois além de não comer nada, vomitava qualquer coisa que estivesse no estômago, mesmo que fosse somente água. Meu chefe foi extremamente compreensivo e me disse para não me preocupar, que ficasse em casa o tempo necessário para me recuperar. Durante esse período, pensei seriamente em virar vegetariana, pois não conseguia comer qualquer alimento de origem animal. Esse pesadelo durou até a 20ª semana, quando os enjôos e vômitos finalmente cessaram e eu pude voltar a me alimentar normalmente.
Com 20 semanas fiz a segunda e última ecografia (ultra-som) da gravidez, onde descobrimos que eu esperava uma menina - meu sonho dourado. Eu quase não acreditei, quando o médico disse que eu podia comprar tudo cor-de-rosa, pois eu jurava que esperava outro menino. Fiquei muito feliz, pois era o que eu mais esperara na vida: uma filha. Desde essa semana, comecei a sentir contrações de Braxon-Hicks bastante freqüentes e que perduraram durante o restante da gestação.
Bem, após esse período, ainda enfrentei problemas com dores nas pernas, que me impediam de caminhar muito e uma terrível crise de hemorróidas, que me afastou do trabalho por mais uma semana. Eu não queria mais faltar ao trabalho! Queria trabalhar até o último dia, se necessário fosse, só sair de lá para parir. Quando a barriga já estava enorme e eu andava feito uma pata choca, as pessoas se apavoravam comigo e me diziam: "Carla, cuidado! Não vai ter esse bebê aqui na empresa!"
Minha data prevista era 6 de novembro, mas eu dizia ao obstetra: "Eu não chego a novembro". Eu tinha certeza que iria parir antes, apesar de que meu filho veio com 40 semanas completar, eu tinha a intuição de que minha filha viria antes. Como o obstetra tinha que viajar, mas iria ficar em Porto Alegre até meu bebê nascer e só então viajaria, eu sentia que tinha que parir antes, mas quem iria decidir isso seria meu corpo. A enfermeira obstetra tampouco estaria naquela semana e eu não me via parindo sem ela por perto. Eu precisava parir antes do feriado de Finados!
Quando eu estava com 37 semanas, na metade de outubro, naquele fim de semana o obstetra e sua assistente estavam em São Paulo e eu comecei a sentir fortes contrações. Fiquei apavorada com a possibilidade de parir sem a presença de ambos e liguei para o obstetra. Ele me disse para contar as contrações e se elas entrassem no ritmo, era para eu ligar, que qualquer coisa eles pegavam o avião de volta para Porto Alegre. Assim como vieram, as contrações simplesmente perderam o ritmo. Quando eu pensava que elas iam engrenar, elas iam embora. Naquela terça-feira, consultei com o obstetra, que riu e disse que bastava ele ficar longe, que suas gestantes tinham contrações. Ao exame de toque, ele constatou que estava com 1 cm de dilatação. A bebê estava posicionada, mas não encaixada, o que não significava nada, pois ela poderia encaixar na hora do parto.
Na sexta-feira seguinte, acordei com contrações, que vinham ritmadas, mas depois de um certo tempo, acabaram indo embora. Liguei para o obstetra, para mantê-lo informado de minhas contrações, mas já sabendo de antemão, que, enquanto elas não entrassem no ritmo, nada poderia ser feito, a não ser ESPERAR. Quando eu pensava que elas iam engrenar, paravam. Falei novamente com o obstetra, que me aconselhou relaxar e dar uma caminhada. Cheguei a anotar algumas contrações, que estava vindo de 20 em 20 min e depois espaçavam novamente. Chamei minha amiga, vizinha e futura madrinha de minha filha para dar uma caminhada comigo.
Enquanto caminhava, as contrações vinham fortes e ritmadas, mas quando voltamos à casa dela e me sentei, elas passavam. E assim passei o resto da tarde e da noite, com contrações entrando no ritmo por algum tempo e depois espaçando novamente. À noite, além das contrações irregulares, ainda senti forte enjôo. O obstetra ligou à noite para saber como eu estava e eu disse que não havia ligado mais, porque minhas contrações não haviam entrado no ritmo. Ele mandou relaxar e ligar, se houvesse alguma mudança no quadro.
No sábado pela manhã, ao entrar na 38ª semana, acordei com muita dor nas costas e muita cólica, com contrações ritmadas, mas novamente, quando eu pensava que elas iriam entrar no ritmo, elas acabavam espaçando.
Trabalhei normalmente até quinta-feira, 28 de outubro, quando comecei a sentir muitas contrações, já me sentindo desconfortável. Fui embora naquele dia, achando que iria voltar no dia seguinte, mas acordei na sexta-feira com muitas contrações e acabei ficando em casa. Não fui trabalhar de manhã e liguei para o obstetra, que me disse receitou dois medicamentos homeopáticos para fazer com que as contrações entrassem no ritmo e pediu para passar no consultório dele à tarde. Também me disse para caminhar bastante, para ajudar o bebê a descer e encaixar. À tarde, fui à consulta e no exame de toque eu já estava com 2 para 3 cm de dilatação, um bom sinal. Agora, era só esperar as contrações entrarem no ritmo.
Aquela sexta-feira, 29 de outubro, era o aniversário de meu irmão, Fabio, e eu ainda não sabia se a Melissa iria nascer na mesma data que o tio. Mas ela esperou. Pudemos ir à casa de meu irmão, comemorar o aniversário dele, apesar de minhas fortes contrações. Tirei minhas últimas fotos de grávida e pegamos emprestada a câmera digital dele, para poder fotografar o parto. O Alexandre e eu viemos para casa e deixamos o Gabriel Thomas com meus pais, já que o parto poderia acontecer a qualquer momento.
30 de outubro: pela madrugada, acordei com as fortes contrações, mas resolvi não dar bola para elas. Levantei-me e fui assistir um pouco de televisão. Às 4 horas fui me deitar novamente e aí comecei a contar as contrações: estavam vindo a cada 8 min, contadas no relógio durante uma hora inteirinha. Resolvi esperar até as 6 da manhã para ligar para o obstetra e a enfermeira obstetra, sua assistente, para informar do ritmo das contrações. A enfermeira obstetra me disse para ficar tranqüila e ligar novamente dali a uma hora.
Fui preparar o café da manhã e fiquei parada defronte à pia da cozinha, chorando, ciente de aquele era meu último dia grávida. Estava chegando ao fim uma gravidez muito curtida, mas também muito sofrida. Estava realizando o sonho de um parto domiciliar, mas ao mesmo tempo estava terminando uma gestação que me fizera sofrer muito ao longo do ano.
Estava com 39 semanas de gestação e eu estava certa: não chegara a novembro. Tomei o café com o Alexandre e tentei ler o jornal, mas as contrações não me deixavam sossegada. Às 7 horas, ligamos novamente e a enfermeira obstetra e ela recomendou que tomasse um longo banho quente. Ainda consegui enviar uma mensagem para a lista antes de entrar no banho, avisando de meu trabalho de parto.
Fui para o banho e as contrações já estavam fortes os suficientes para me fazerem gritar embaixo do chuveiro. O Xandi colocou uma cadeira no box para eu poder me apoiar durante as contrações. Ele ficou me massageando nas costas, o que ajudava a aliviar a dor junto com a água quente. Fiquei mais de uma hora embaixo d'água, até que o Xandi disse para eu sair. Já eram 9 horas da manhã, e nada do obstetra e da enfermeira obstetra chegarem. Fui para nosso quarto e me agarrei na guarda da cama.
As contrações estavam cada vez mais fortes e eu gritava cada vez mais (essa é a vantagem de parir em casa, dá para gritar à vontade, com o único senão de assustar os vizinhos com os gritos). O Xandi ligou para o obstetra, que disse que já estavam a caminho. Eles chegaram entre 9h30min e 10h e, ao vê-los, comecei a chorar de alívio, pois já estava desesperada. O obstetra me disse para eu me acalmar, que eles já estavam ali, mas meu choro era para descarregar a tensão.
Eles imediatamente começaram a cuidar de mim: a doula, Elisa, logo descalçou os sapatos, subiu em cima da cama e começou a fazer massagem em minhas costas. A assistente pegou o aparelho para medir os batimentos cardíacos e a me falar palavras de carinho e incentivo. O obstetra ouviu os batimentos fetais, fez o primeiro exame de toque, onde constatou 6 para 7 cm. Foi meio decepcionante, pois todos pensávamos que eu já estava no expulsivo. Bem, pelo menos todas aquelas contrações serviram para dilatar o colo do útero!
Como eu estava muito nervosa, o obstetra recomendou uma xícara de chá de camomila para me acalmar. A enfermeira obstetra ainda fez cromoterapia, com um banho de luz azul, que é calmante. As contrações vinham bastante fortes e doloridas e a eza me dizia para eu me entregar a elas e me indicando que tinha que deixar a contração agir, respirar para relaxar o corpo, O Xandi ficou junto comigo, me acariciando e dando força. O obstetra vinha de vez em quando e me dizia para relaxar o corpo, que tudo estava correndo perfeitamente bem e que era só uma questão de terminar de dilatar o colo, para pode começar a fazer força para fazer nascer minha neném. E ainda falava animado e sorrindo: "Mas que bom, hein? Como este TP está indo rápido!".
Fui novamente para o chuveiro, para ajudar a agüentar as fortes dores. Fiquei sentada no banquinho para parto de cócoras, preciosidade que o obstetra e sua assistente trouxeram. Voltei novamente a meu quarto, onde fiquei primeiro de joelhos e depois me deitei, pois estava muito cansada. Quando fiquei por muito tempo deitada, a enfermeira obstetra me recomendou que eu me levantasse, para melhorar a circulação nas pernas. Foi quando me levantei e decidi que iria parir minha filha no quarto dela e do irmão.
Sentei-me no banquinho e fiquei por mais de uma hora sentada nele. O Ric aparecia na porta do quarto, todo animado: "Viu só Carla, como este TP está sendo rápido?" E eu perguntava a ele: "Estou indo bem?" E ele: "Estás indo perfeitamente bem" e eu: "Vou conseguir?" E ele: "Claro que sim!". Houve momentos que me deu vontade de desistir, pois há uma hora que a gente perde a coragem, que acha que não vai conseguir, que se me oferecessem anestesia, eu certamente teria aceitado, mas ao mesmo tempo sabendo que aquela era MINHA escolha e que agora tinha que ir até o fim, não importando o quanto doesse. Sim, desta vez senti bastante dor nas contrações, nada insuportável, mas depois de 7 horas sentindo dor, a gente acaba cansando e quer que acabe tudo de uma vez. Eu então pensei: "Estou sentindo dor agora, mas vai chegar o momento que ela nascerá e toda essa dor fará parte do passado. Falta pouco, Carla", dizia para mim mesma, "mais um pouco e já terás tua filha nos braços".
Eu então perguntava à assistente: "Quanto falta?" e ela me dizia: "Falta pouco", ou senão o obstetra: "Faltam uns 2 cm". A cada exame de toque, eu gritava cada vez mais, queria que aquilo acabasse de uma vez. No penúltimo toque, eu ainda sentada no banquinho de cócoras, a bolsa estourou, já estava com uns 9 cm de dilatação. A enfermeira obstetra começou a preparar tudo para a chegada da Melissa: a banheira para o primeiro banho, a toalha para embrulhá-la, a roupinha que ela iria usar. Eu olhava tudo aquilo e não conseguia acreditar que já estava no fim, que ela já estava por nascer. Parecia um sonho.
Como estava muito cansada e com as pernas doloridas de estar sentada, fui me deitar na cama do Gabriel Thomas. A cabecinha da Melissa já era visível, mas ainda faltava dilatar mais um centímetro. No último exame de toque, o obstetra fez um movimento para tirar o rebordo e então senti a cabecinha dela vindo, a famosa vontade de fazer cocô. Eu ainda estava deitada e eles acharam que eu iria parir na posição de Simms, que é de lado. Eu fazia força e a cabecinha vinha, mas quando eu relaxava, ela voltava para trás.
Então o obstetra me disse: "Carla, no próximo intervalo entre uma contração e outra, pula para o banquinho, pois aí será mais fácil para fazer força". Quando a contração passou, rapidamente pulei para o banquinho e comecei a fazer força para valer. Senti a cabecinha da Melissa vindo pelo canal vaginal, o períneo queimando. A enfermeira obstetra colocava panos quentes nele e me disse: "É o Círculo de Fogo".
Numa força, saiu parte da cabecinha, na segunda força, veio a cabecinha inteira. Eu ouvia os gritos do Alexandre, que dizia: "Isso, Amor, ela está vindo! Já saiu a cabeça!". Eu gritava muito. Na última força, eu gritei bem alto, pedindo para ela sair. E assim foi: com um grito comprido, coloquei para fora minha filha, que chorou logo em seguida ao nascer. Nesse momento, tocou o telefone: era minha sogra, querendo notícias. Nem havíamos olhado direito para ela e nem havíamos confirmado se era mesmo uma menina.
A enfermeira obstetra me entregou minha neném, que chorava forte: gorducha, quente, rosada, suja de sangue e a cara do Gabriel Thomas quando recém-nascido. As mesmas feições dele, os mesmos traços do Alexandre: o mesmo nariz, a mesma boca, o mesmo queixo, as mesmas entradas no cabelo, porém mais cabeluda que o irmão.
Enquanto eu ainda estava sentada, o sangue escorrendo feito torneira, ouvi um plof-ploft!: era a placenta, que caiu sozinha. A enfermeira obstetra me disse que era melhor que eu me deitasse, antes que perdesse mais sangue e minha pressão baixasse muito. Ela limpou a Melissa e a embrulhou na toalha, entregando-a ao orgulhoso Papai para que a olhasse. Ele a devolveu para mim, para que eu a amamentasse. Logo em seguida, a enfermeira obstetra a pesou, deu o primeiro banho e a vestiu. A assistente e o obstetra examinaram meu períneo, que teve lacerações mínimas, que não necessitaram de pontos. Apesar de ter a cicatriz da laceração do primeiro parto, ele não rasgou.
Comecei a fazer as primeiras ligações, avisando ao pessoal do seu nascimento. O Alexandre foi comprar pão para fazer um café à maravilhosa equipe, o obstetra, sua assistente e a doula. Sem o apoio deles, eu não sei se teria conseguido. Eles foram fundamentais para eu pudesse ter outro parto vitorioso e, desta vez, domiciliar.
Foi um parto tranqüilo em um ambiente aconchegador, meu lar, onde pude parir minha filha onde eu escolhi. Ela nasceu saudável e perfeita e minha recuperação foi excelente e ainda mais rápida que do primeiro parto.
Sou grata a Deus por me proporcionar experiências gratificantes em meus dois partos e por eu ter realizado o sonho de parir em casa. Tenho consciência de que sou muito afortunada por poder contar com o apoio destes profissionais que lutam pela dignidade das mulheres e seus partos humanizados e empoderadores.
Espero que minha experiência sirva de incentivo às outras mulheres que também desejam parir de maneira humanizada e que tenham vitórias nas suas conquistas.
Carla Beatriz Piuma Maise tem 39 anos, é secretária executiva e ativista voluntária do parto normal e da amamentação, tem dois filhos nascidos um de parto normal hospitalar e outro de parto domiciliar. Mora em Porto Alegre (RS). Email de contato: bettyrs1@gmail.com
|