Home Quem Somos Prêmio Boletins FAQs Produtos Profissionais Amigos
Home arrow Histórias de parto arrow Parto Domiciliar arrow O parto de Tomás contado por ele mesmo
O parto de Tomás contado por ele mesmo PDF Imprimir E-mail
Por Kátia Zeny Assumpção*   
23 de Outubro de 2007
nas palavras de Kátia Zeny Assumpção*, sua enfermera-parteira
15/07/07, Jacareí - SP

Bom, para falar do meu nascimento, tenho que explicar o que aconteceu antes, parece até novela. Já não é novidade que minha mãe ficou muito traumatizada com o parto do meu irmão, o Lucas e de jeito nenhum ela queria algo parecido. Eu ouvia mamãe falando isso e também tinha uma certeza: eu também queria nascer de forma bem diferente.
Quando mamãe e papai foram conhecer o Hospital São Franscisco, lá em Jacareí, conheceram também, pessoalmente e no mesmo dia, a Gizele e a Kátia, a tal enfermeira parteira de quem a Gizele falara.
Eles gostaram muito do Centro de Parto, é esse o nome do lugar onde ficam as gestantes para ganhar bebê. Gozado, lá não parece hospital, pelo que ouvia, e mamãe poderia ficar em uma suíte só para ela e com quem quisesse.
Bem, depois disso, ela ficava falando com essa enfermeira por telefone. Na sexta feira, dia 13 de julho, eu estava incomodado, dando os primeiros sinais que queria mesmo sair do meu abrigo, o útero gostoso da mamãe. É, cada um tem seu tempo... eu sabia que meu prazo de ter vida de marajá estava acabando...
A mamãe ligou para Kátia, mas foi rebate falso. Na verdade, eu tive dó da minha mãe, ela estava muito cansada nesse dia, precisava dormir para ter energia para me ajudar a nascer e... eu dei um descanso para ela, merecido!
No sábado, dia 14, cedo a Kátia ligou, as contrações não pararam, mas estavam ainda naquele vai não vai. Eu queria engatar a marcha pra sair, mas o útero não ajudava. Por volta das 12h, não teve jeito, a mamãe estava mesmo sentindo muitas contrações, eu sentia meu corpo apertado e sendo empurrado...
Por outro lado, bateu a insegurança na minha mãe: e se não desse tempo de ir para o hospital, que ficava a 45 minutos de casa? E se fosse muito rápido? E se acontecesse alguma coisa na Dutra? A Kátia disse para ela que se ela ficasse na dúvida, deveria seguir seu instinto e ir para maternidade e foi isso que ela fez, junto com meu pai.
Ao chegar ao hospital, encontraram a Kátia, que acompanhou a consulta. Olha que legal, quem estava de plantão era uma médica belezinha, que é humanizada. Mamãe vive falando nisso, eu não entendo bem esse negócio, só sei que ela tratou minha mãe bem e disse que ela não estava ainda em trabalho de parto. Taí, outra coisa que eu não entendo. Por que chamam de trabalho o mecanismo que me faz sair do útero da mamãe? Não podia ter uma outra palavra mais bonita? Tudo bem, que é trabalhoso, mas, eu queria chamar de outro nome!
A Dra. Eliane, como chama-se essa médica, disse que seria bom mamãe andar e comer e voltar mais para o final da tarde. Então fomos, mamãe e eu (claro!), papai e a Kátia fazer um tour pelo shopping de Jacareí e pelas ruas do centro da cidade. E dá-lhe andar... no shopping; sobe... e desce escada. De vez em quando, mamãe, esse ser lindo, parava e expressava que sentia uma contração... Eu sentia de novo meu corpinho ser apertado e empurrado.
Continuamos a caminhada ao voltar para hospital; nem entramos, a Kátia sugeriu - ai! que dó da minha mãe! - que andássemos nas ruas ao redor: com ladeiras e subidas. E fomos...
Ao final da tarde eles estavam cansados, até eu também. Mamãe foi avaliada novamente pela médica. Nada: ainda não estava na tal fase ativa, as contrações estavam irregulares, mas eu já tinha descido bem, estava procurando a saída e o lugar por onde eu teria que passar; o tal colo do útero já estava com quase 5 centímetros, isso era ótimo, metade do caminho já estava aberto para eu sair!
A tal médica se propôs a vir e fazer o parto da mamãe, deu o número do telefone e disse que podiam chamá-la a qualquer hora. Surgiu um impasse: meus pais podiam até voltar pra casa, mas a qualquer hora eu podia nascer. Era cedo para ficar no hospital. Então, meus pais resolveram ficar na cidade e procurar um hotel para passar a noite.
O que eles não esperavam era que naquela cidade pequena, estava acontecendo uma grande festa regional e os hotéis estavam lotados. Tinha que ser assim... esses meus pais... Tiveram que ficar em um tal de motel, um pouco afastado do centro. Também não sei a diferença dos nomes dos lugares, só sei que eles ficaram animadinhos e namoraram. Eu fiquei tão feliz de sentir os dois trocando carinho e expressando o quanto se amam, que me animei de fato para sair e conhecê-los, não agüentava mais esperar!
Aí, não teve jeito! Por volta de 1h, mamãe ligou para a Kátia e disse para ela que agora estava na hora e que ia para a maternidade. A Kátia chegou na maternidade junto com a Patrícia, que também é enfermeira parteira.
Um médico muito estranho examinou a minha mãe, não gostei nem um pouco, de senti-lo tocando minha cabeça. Não foi com cuidado e minha mãe também detestou aquela "mãozona" examinando-a.  Ele disse que ela ficaria internada. E não deu ouvido quando minha mãe disse que a Dra. Eliane ficou de vir, embora não tivessem conseguido entrar em contato com ela.
    Minha mãe foi conduzida para o Centro de Parto Normal e meu pai ficou lá na frente fazendo a internação. Quando as duas enfermeiras chegaram, a mamãe estava com muita dor. Elas começaram a fazer massagem nas costas da mamãe. Tinham levado uma bola e uma banqueta de parto. Aquela bola, tão grande, foi tão boa para aliviar as dores da mamãe, que escolhi nascer sobre ela mesmo.
    A Patrícia, que a mamãe só conheceu naquele dia, foi um anjo... Apoiou, abraçou, amparou o corpo da mamãe. A Kátia ouvia a mamãe, tocava seu corpo, falou muito pouco, mas estava atenta. E, de repente, mamãe começou a vomitar (urgh!) e como vomitou...! Muito, ainda bem que eu não vi, só ouvi os ruídos aqui de dentro.
     As meninas, limparam a mamãe e ficaram ao lado dela. O papai, esse foi muito jóia mesmo. Tadinho... tinha hora que ele não sabia o que fazer, pegava a mão da mamãe, apertava, beijava. Ele estava vendo-a sentir dor e sentia-se impotente naquele instante.
    Então, lá por volta das 03:20h a Kátia fez um exame, eu senti alguém tocando minha cabeça, ela disse que estava com 6, quase 7 centímetros. Sugeriu para a mamãe que seria bom ela ir para o chuveiro. Elas já tinham falado antes, mas minha mãe estava em transe de dor, ela não queria nem se mexer... doía muito.
    Nesse meio tempo o tal médico do plantão queria romper a bolsa de águas que me protege. Quem ele pensa que é para fazer isso? Aí, a Kátia, enfrentou a situação e disse que a mamãe não queria isso não. e que elas duas estavam acompanhando a mamãe. O homem ficou uma fera, mas depois de mover várias pessoas e não conseguir nada... muito bravo, sumiu do mapa, para a nossa alegria!
    Depois de alguns minutos, conseguiram convencer a mamãe a ir para o chuveiro, sabiam  que a água seria o anestésico natural que aliviaria sua dor.
Tinha uma funcionária, que vi muito rápido depois que nasci, que de vez em quando olhava lá no quarto e achava muito esquisito tudo o que estava acontecendo.
    Ai, a Kátia... mamãe pediu algumas vezes um tal de buscopan. Não que ela quisesse mesmo, mas ela estava no seu limite de dor. A Kátia ficou ali... encorajou a mamãe, queria que soubesse que sabia o quanto doía, que o melhor era relaxar. E Patrícia conseguiu fazer com que a mamãe relaxasse tanto que até conseguiu um cochilo...
    Depois disso, veio outra onda muito forte de contrações e dores e por volta de 4h20 a bolsa estourou, eu estava vibrando aqui dentro, sabia que estava cada vez mais próxima a hora de sair. Tá vendo? Não precisou ninguém estourar a minha bolsa!!!
    Mamãe agora estava mais em transe, ela gemia e dizia que não agüentava mais e que estava com vontade de fazer força de cocô. Era eu pressionando com a minha cabeça que já tava quase saindo. A Kátia dizia que ela podia fazer a tal força e que não se preocupasse com o cocô. Mais um pouco... e mamãe sentiu minha cabeça lá em baixo e falou que eu ia nascer. Ela levantou um pouco o corpo da bola; a Kátia perguntou se queria mudar de posição e ela disse que não, então... eu comecei a mergulhar para esse mundão aí de fora.
    Mamãe passou a mão na minha cabeça, que delícia! Foi seu primeiro contato externo comigo, ela sentiu o quanto eu era cabeludo. Quanto prazer ela teve nesse instante. A Kátia e a Patrícia diziam várias coisas boas para mim enquanto eu estava sendo empurrado para fora do corpo da mamãe. Diziam que eu era bem vindo, que meus pais me amavam muito. Só coisas lindas! Mas nada, nada foi tão marcante quanto ouvir minha mãe falar para meu pai: "Nosso filho tá nascendo Cláudio!". E papai via tudo e vibrava, eu sabia que ele mal podia se conter. E ali no banheiro, amparado na bola foi o melhor lugar do mundo para mim.
    A Kátia dizia para mamãe respirar fundo. Saiu minha cabeça, rodei um pouco e  meu corpinho todo saiu... fui amparado pelas mãos da Kátia, que logo me colocou nas mãos da minha mãe. Não dá... não dá pra contar o tanto que eu amei esse momento. Ai!!! Sentir o cheiro da mamãe, ouvir sua voz ao vivo e a cores. Sentir o calor do seu corpo, que me aquecia também... foi demais!!! Eu fiquei logo coradinho e não abri o berreiro. Fiquei calminho, só resmunguei um pouco...
    Perguntaram quem cortaria o cordão. Meu pai não teve coragem, mas minha mãe fez isso. Olha mãe, esse cordão umbilical foi cortado, mas eu sei que sempre estarei unido à você! A nossa união e a nossa relação não dá pra descrever e explicar. É algo muito profundo... E será para sempre!
Taí, sabe por que temos umbigo? Claro, para sempre lembrar que estivemos ligados intimamente com a mamãe!!! Viva!!!
Pensa que acabou? Ainda não, enquanto mamãe era levada para sentar-se na banqueta para esperar a placenta sair, eu fui levado, para o berço aquecido no quarto. É claro que preferia o colo da mamãe, mas a pediatra precisava me avaliar. Ela foi tão legal, não enfiou sonda e nem ficou irritando.
Até aqui eu ainda não tinha aberto os meus olhos, achei que tinha muito vernix, sei lá... A Kátia falou para o meu pai que ele podia me tocar enquanto acompanhava de perto o exame. E foi nessa hora que eu nasci para o meu pai, quero dizer, foi nesse instante, que tive o contato mais íntimo com meu pai. Ele tocou minhas mãozinhas, e falou bem pertinho do meu ouvido o quanto me amava e que era ele que falava comigo enquanto eu estava na barriga da mamãe. Então..., eu fui abrindo os olhos devagar e devagar e ... encarei-o nos olhos!
Eu enxerguei meu pai. Eu queria dizer para ele que também o amava e o quanto foi importante ele estar presente nesse momento do meu nascimento. Foi demais!!!! A Kátia não se segurou, e as lágrimas rolaram em seu rosto.
    Depois disso, a pediatra disse que eu tinha um sopro importante no coração e que por precaução precisava ficar em observação na Unidade de Cuidados Intermediários-UCI. Eu sabia que não era nada grave, mas como não sei falar... só queria dizer que tenho mesmo um sopro enorme, gigante mesmo... de vida e de amor, dados por Deus, através de vocês, meus pais.
    Mamãe tomou um banho bem gostoso, foi ajudada pela Patrícia e pela Zizi, que chegou pouco depois que eu nasci. Obrigada, Zizi, sua ajuda e apoio foram indispensáveis para que mamãe pudesse me ter desse jeito, tão especial!
Depois do banho, a disposição era tanta que ela mesma me levou na UCI. Curti seu colo, lamentando terem me privado de mamar, por causa do sopro. Só desculpo porque sei que foi para o meu bem.
Foi assim que eu nasci... Imagino que tenho um futuro e tanto pela frente e já começou a ser bom, por terem respeitado meu nascimento e permitido que eu saísse do jeito que eu queria. Obrigado a todos que contribuíram para que eu nascesse sem intervenções e da forma mais natural possível, com certeza isso vai influenciar toda a minha vida.

* Kátia Zeny Assumpção 38 anos, São José dos Campos-SP, email: katiazeny@gmail.com, enfermeira obstertra.
HTML Comment Box is loading comments...
 
CURSOS ONLINE
 
 
Menu
Parto
Histórias de parto
Humanização e mais
Casas de Parto
Gestação
Bebê
Pós-Parto
Alimentação
Mães & Pais
Feminino
Direitos
Trabalhos e Pesquisas
MAPA DO SITE
 
  
Em breve:
 
 

Blogs

Itens Relacionados