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Vencedora do Prêmio Nacional Amigas do Parto 2007 Categoria Enfermeiras Obstetras
Enfermeira obstetra Rio de Janeiro (RJ) fatima.reis@infolink.com.br
Quando foi que você decidiu pela carreira de enfermeira obstetra? Por quê? Quando ainda aluna do Curso de Graduação de Enfermagem passei pelo estágio na maternidade iniciando a assistência as gestantes e parturientes. Por que fiquei apaixonada pela assistência obstétrica.
Qual é, a seu ver, a função da enfermeira obstetra? De orientar e cuidar integralmente da gestante nos períodos de gestação/parto/nascimento e puerpério com competência técnico-científica, vocação, amor e cumplicidade.
Como você vê o trabalho no hospital? Nos hospitais onde há maternidades, o risco das mães e bebês contraírem infecções é maior. O remanejamento da equipe de enfermagem é constante, agravando esta situação expondo as mães a profissionais não qualificados. Não sou a favor de hospitais possuírem maternidade, este trabalho não é indicado.
Qual é sua visão da situação obstétrica no Brasil? Ainda há muito a ser feito. Com as políticas de humanização a assistência no pré-natal e nascimento sinto que os passos começaram a ser trilhados, mas que levará muitos anos para que as propostas do Ministério da Saúde sejam implantadas e cumpridas a contento. Infelizmente, no Brasil não podemos nos orgulhar plenamente da assistência obstétrica prestada a população que depende do SUS.
Conhece as Recomendações da OMS? Quais delas incorpora em sua prática e quais lhe parecem inapropriadas? Sim, conheço. As que incorporo: Avaliar os fatores de risco da gravidez durante o cuidado pré-natal; Monitorar o bem-estar físico e emocional da mulher ao longo do trabalho de parto e parto, assim como ao término do processo do nascimento; Oferecer líquidos por via oral durante o trabalho de parto e parto; Respeitar a escolha da mãe sobre o local do parto, após ter recebido informações; Respeito ao direito da mulher à privacidade no local do parto; Buscar apoio empático pelos prestadores de serviço durante o trabalho de parto e parto; Respeitar a escolha da mulher quanto ao acompanhante durante o trabalho de parto e parto; Oferecer às mulheres todas as informações e explicações que desejarem; Não utilizar métodos invasivos nem métodos farmacológicos para alívio da dor durante o trabalho de parto e parto e sim métodos como massagem e técnicas de relaxamento; Fazer monitorização fetal com ausculta intermitente; Usar materiais descartáveis ou realizar desinfecção apropriada de materiais reutilizáveis ao longo do trabalho de parto e parto; Usar luvas no exame vaginal, durante o nascimento do bebê e na dequitação da placenta; Liberdade de posição e movimento durante o trabalho do parto; Estímulo a posições não supinas (deitadas) durante o trabalho de parto e parto; Monitorar cuidadosamente o progresso do trabalho do parto, por exemplo, pelo uso do partograma da OMS; Utilizar ocitocina profilática na terceira fase do trabalho de parto em mulheres com um risco de hemorragia pós-parto, ou que correm perigo em conseqüência de uma pequena perda de sangue; Esterilizar adequadamente o corte do cordão; Prevenir hipotermia do bebê; Realizar precocemente contato pele a pele, entre mãe e filho, dando apoio ao início da amamentação na primeira hora do pós-parto; Examinar rotineiramente a placenta e as membranas. Tenho a dizer que concordo com as recomendações da OMS, a que me parece inapropriada se situa em: Condutas claramente prejudiciais ou ineficazes e que deveriam ser eliminadas (Uso rotineiro de enema). Na minha experiência posso afirmar que os partos contaminados com fezes são aqueles em que não foi realizado o enema, porém não sou a favor que se faça o enema como rotina. É necessário que a parturiente seja entrevistada sobre os seus hábitos intestinais e dietéticos, para que desta forma seja feito o enema somente nos casos indicados. É péssimo no momento do parto a gestante evacuar, por mais que tentemos dizer que é isto está previsto, ela fica constrangida e contamina o parto. Por isto penso que devemos estabelecer critérios para a realização do enema em parturientes.
Conhece o Movimento pela Humanização? Sim, conheço.
De que forma se dá seu engajamento no Movimento pela Humanização? Procuro me manter atualizada através do Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento do Ministério da Saúde, e demais diretrizes, assim como do Projeto Luz da JICA – Manual do Parto e Nascimento, das Recomendações da OMS no Atendimento ao Parto Normal e demais orientações e experiências trazidas de serviços nacionais e internacionais. Buscando aplicar e ensinar aos meus alunos tais recomendações na prática com as gestantes, parturientes e seus bebês, assim como incentivando as maternidades a buscar seguir tais recomendações. Procuro participar de eventos que abordem a temática da assistência humanizada, assim como organizar tais eventos. Quais são os limites e os desafios que reconhece nesse Movimento no Brasil? Os limites são impostos pela truculência dos profissionais que atuam na sua maioria em obstetrícia, não permitindo ou dificultando a implantação do Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento do Ministério da Saúde e demais diretrizes afins. Isto se faz visível nitidamente nos serviços públicos e principalmente nos privados. Visto que estes profissionais de obstetrícia comumente são os gestores das unidades, chefes dos serviços e chefes dos plantões. Infelizmente tais atitudes resultam em intervenções desnecessárias que levam ao risco de graves seqüelas e morte ao binômio mãe e filho. Os desafios se focam na nossa luta coletiva e pessoal para criarmos nestes profissionais a conscientização da importância de implementar o Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento do Ministério da Saúde e de outras entidades de peso como a JICA - Projeto Luz. Muitas enfermeiras têm receio de se engajar na luta com medo de demissão e represálias, assim como já conversei com médicos que ficam em situação difícil porque são minoria e perseguidos por seus colegas por compactuarem com as idéias de humanização ao parto. A situação é muito delicada, visto que a criação da primeira Casa de Parto no Rio de Janeiro sofreu inúmeras perseguições e processos na justiça na tentativa de não permitir a inauguração e posteriormente na tentativa de fechá-la. A cada semana sofremos um novo golpe judicial, mas apesar de todo estresse temos nos saído bem. É como uma amiga minha diz, ser enfermeira obstetra no Rio de Janeiro e trabalhar em sala de parto é matar um leão por dia e às vezes dois.
Como você vê as estratégias adotadas e quais são suas sugestões? - As estratégias adotadas são boas, servem como modelo para outros países, alguns problemas devem ser observados, são eles:
- Não há condição de adesão de toda a população que necessita do SUS. Não há vagas suficientes e nem a oferta dos serviços obstétricos em algumas localidades.
- Não há conscientização de todos os profissionais sobre a relevância da implantação da assistência humanizada ao pré-natal e ao parto.
- Sugiro que: sejam contratados profissionais médicos e enfermeiros em número suficientes para prestarem a assistência humanizada proposta; tais profissionais sejam submetidos a rigoroso treinamento na assistência humanizada e fiscalizados e avaliados no exercício de suas atividades com a s gestantes e parturientes; que seja criado em cada maternidade ou serviço de obstetrícia uma comissão de fiscalização da assistência humanizada a gestação/parto e nascimento que fiscalize e tenha poder de avaliação funcional o servidor que não cumpra as diretrizes da humanização a gestação/parto e nascimento; que estas comissões tenham vínculo com as associações de especialistas de obstetrícia de enfermeiros e médicos, assim como sejam nomeadas e fiscalizadas por estas associações em conjunto com o Ministério da Saúde.
Como vê a atuação dos médicos obstetras na equipe de trabalho? Depende muito dos médicos em questão e da equipe. Há equipes em que há profissionais humanizados prestando assistência de qualidade. Há outros médicos e equipes em que ficamos receosas de encarar o plantão: eu digo que neste caso as mães e os bebês são literalmente “atropelados”, pois o parto acaba temos a impressão que ambos sofreram um acidente, tamanho são os traumas físicos, neurológicos e psíquicos.
Como avalia a atuação do neonatologista ao cuidar do recém-nascido ainda em sala parto? É relativo ao plantão, há alguns neonatologistas que incentivam a não cortar o cordão umbilical precocemente, colocar o bebê sobre o ventre da mãe e a estimular o aleitamento imediato após o nascimento. Há outros neonatologistas que separam mãe e bebês sadios como se o bebê necessitasse de grandes intervenções e agem como tal realizando procedimentos não necessários.
O que lhe passa pela mente ao acompanhar o nascimento de um bebê? Gera grande expectativa, emocional, sempre me reporto a criação Divina, ao Dom da Vida e de como a natureza é perfeita. E de como é grande a nossa responsabilidade neste momento.
O que mais o emociona em um parto? Ver o bebê coroar e realizar a rotação externa da cabeça e o momento em que a mãe vê o bebê pela primeira vez.
O que você mais teme em um parto? Descolamento prematuro de placenta.
Do seu ponto de vista, o que é que ajuda o andamento de um trabalho de parto e o que atrapalha? O que ajuda: A parturiente ser ajudada a movimentar-se adequadamente com os exercícios facilitadores do trabalho de parto e do parto e a se manter relaxada com o auxílio de massagens e o acompanhante de sua preferência. O que atrapalha: Parturiente restrita ao leito; receber analgesia peridual ou raqueana precocemente com bebê alto e colo ainda por dilatar adequadamente. Isto comumente acontece e o parto não progride adequadamente, as intervenções errôneas se iniciam com o uso de fórceps e clisteler, que muitas vezes são ineficientes culminando em cesariana, nestes casos o bebê apresenta depressão respiratória e outras complicações e necessita de internação na UTI neonatal. A parturiente sempre é submetida à episiotomia alargada e a posterior revisão do colo que demonstra lacerações que necessitam de reparo cirúrgico. Todos estes fatos aqui citados acontecem com freqüência em efeito cascata após analgesia de parto precoce.
Quais procedimentos no atendimento ao parto você utiliza? Por quê?
- Estabelecer relação de ajuda. Pra que ela fique colaborativa e confiante.
- Avaliação física obstétrica delicada e respeitosa. Para não constranger, incomodar ou causar dores e edema de colo uterino.
- Avaliação da cárdiorreatividade fetal com o sonnar Doppler por 20 minutos seguidos repetindo a cada 20 ou 30 minutos podendo ser mais amiúde dependendo da situação. Coma finalidade de detectas sofrimento fetal agudo.
- Verificar pulso, temperatura e pressão arterial materna sempre que necessários. Para avaliar as condições maternas.
- Exercícios facilitadores do parto e massagens em pontos específicos. Para ajudar na progressão do trabalho de parto e diminuir a tensão relaxando a mãe e liberando endorfinas e serotoninas e deixando-a descansar quando desejar.
- Registrar tudo em partograma. Para avaliar o progresso e a evolução do trabalho de parto. Para detectar possíveis complicações e realizar a tomada de providências.
- Orienta-la a parir em posições verticais e semi-verticais. Para facilitar à acomodação da musculatura perineal e vaginal a saída do bebê e não provocar lacerações locais.
- Que o período expulsivo aconteça naturalmente apenas aparando o bebê e ajudando quando necessário. Para que não ocorra tocotraumatismos a mãe e nem seqüelas ao bebê.
- Aguardar o secundamento espontâneo enquanto o bebê suga o seio materno. Para fortalecer os laços afetivos mãe e bebê, incentivar o aleitamento e prevenir hemorragias.
- Manter vigilância da mãe e do bebê nas primeiras horas após o parto. Para avaliar a saúde de ambos.
Como você vê a questão dos altos índices de cesáreas no país? É verdade que as mulheres preferem cesáreas? Pude perceber ao longo dos anos que na nossa sociedade dividida entre pobres e ricos, os médicos particulares por motivos de interesses pessoais e por motivo de segurança, preferem agendar os nascimentos por cesarianas para o período da manhã. À tarde preferem trabalhar nos seus consultórios e à noite preferem dormir. Já foi o tempo em que médico obstetra saia à noite e de madrugada para fazer parto. Criou-se então por interesse deles o mito social de que mulher rica e aquelas que podem arcar com maternidades particulares têm filho sem dor por cesariana, e que mulher pobre que depende do SUS tem que sofrer dor de parto e parir gritando e ser maltratada e humilhada em hospital público. Neste caso a indicação da cesariana para o médico é a sua agenda e seus interesses. Para a mulher o médico diz que a indicação é não ter necessidade de sentir dor, de ficar coma a vagina larga e comumente quando a mulher insiste em ter parto normal ele diz que ela não tem passagem. Muitas mulheres pobres que dependem do SUS, costumam fazer faxinas e serviços extras para conseguir juntar dinheiro para pagar uma cesariana, se privando e a sua família, na esperança de se igualarem as mulheres de melhor condição social. Muitas dizem que só porque são pobres não precisam sofrer para terem seus bebês. O problema é que conseguem internação em clínicas não bem conceituadas, pois com o dinheiro que conseguem pagar a assistência é duvidosa, ocorrem diversos problemas nestas clínicas “alternativas” que as mulheres pobres chamam de “ter filho no particular como madame”. Já outras aproveitam e fazem a sonhada laqueadura tubária. Esta situação reflete o alto índice de cesarianas no Brasil.
Como você vê a existência das Casas de Parto? Atuaria em uma delas? As Casas de parto são a real necessidade da melhoria da qualidade da assistência ao parto em nossos pais e em outros. Com toda certeza se tivesse oportunidade atuaria em uma delas.
Existem diversos estudos que apontam para os benefícios na saúde da mãe e do bebê ao adotar a posição de cócoras durante o parto. O que você acha do parto de cócoras? Para aquelas mulheres que tem condições favoráveis de sustentação nos tornozelos e joelhos é a muito benéfico e concordo com os autores e os profissionais que adotam esta prática.
Como e quando realiza a episiotomia? Qual é sua taxa de episiotomia? Há vinte anos atrás eu praticava um alto índice de episiotomias e parto horizontal, pois fui educada desta forma, com o passar do tempo ao estudar sobre as variações das posições de parir me conscientizei e deixei esta prática. Há muitos anos não realizo a episiotomia, nem me recordo quando foi a última vez. Todos os partos que tenho realizado desde então não precisei praticar a episiotomia, avalio a musculatura vaginal e posiciono a mãe sentada ou semi-sentada, mantenho-a relaxada e confiante. Foram poucas as vezes que precisou de sutura, somente na mucosa vaginal sem comprometimento da musculatura. Caso seja necessário que eu realize a episiotomia buscarei faze-la sobre anestesia com a técnica correta e menor possível.
Quais métodos você usa para proteger o períneo? Não costumo interferir no períneo na hora da expulsão fetal, procuro conduzir as orientações para que a mãe relaxe o possível deixando o bebê sair naturalmente com a força uterina natural com auxílio da força da gravidade, para que o períneo e a vagina tenham suas fibras adaptadas gradativamente à saída do bebê diminuindo assim o impacto sobre o mesmo e prevenindo lacerações.
Como você lida com a dor do parto e como ajuda a parturiente a lidar com ela? Procuro estabelecer uma relação de ajuda e confiança, realizo massagens com óleo vegetal de erva cidreira que eu mesma preparo com a planta do meu jardim, pois as propriedades contidas na Lípia alba, entre ela o ácido valeriano ao serem absorvidas pela pele ajudam a relaxar sem prejudicar o bebê. Da mesma forma a massagem libera serotonina e a endorfina. Neste momento da massagem estimulo pontos na região intervertebral lombar responsável pela pelve, que estimula a supra renal a liberar uma substância denominada corticóide endógeno que relaxa levemente a musculatura lisa da pelve reduzindo o desconforto sem comprometer a qualidade da contração. A grande maioria das parturientes refere melhoras dos desconfortos e isto as ajuda a passar melhor pelo trabalho de parto.
Qual é mais ou menos a percentual dos partos que você já acompanhou que evoluem naturalmente e terminam bem, sem que seja preciso realizar intervenções? Quando eu acompanho desde o início e a gestante é colaborativa, a maioria dos partos evolui bem. Mas quando a parturiente não é colaborativa, é estressada, atrapalha muito, normalmente na maternidade os médicos medicalizam o trabalho de parto submetendo-as a analgesia.
Você tem filhos? Esta experiência modificou a sua maneira de atender partos? Como? Tenho dois filhos, muito desejados e amados. Modificou sim. A maternidade me fez valorizar ainda mais a gestante e as mães. Tornou-me mais sensível, mais chorosa em sala de parto. Fez com que eu entendesse melhor os sentimentos da mãe.
Há algum evento/experiência em seu trabalho que marcou sua trajetória profissional e sua visão do parto? Sim, eu ainda era aluna de graduação, atuava como acadêmica bolsista, mas segurava sozinha a sala de pré-parto e parto de uma determinada maternidade pública, realizando todos os partos do plantão, pois os médicos de alguns plantões não tinham nenhum comprometimento com as parturientes. Neste dia ao chegar ao setor deparei-me com uma parturiente exausta, pois mandaram que fizesse força por muitas horas, o útero estava em atonia, e o bebê já coroado não progredia e encontrava-se coberto por mecônio muito espesso em grande quantidade. Em toda aminha vida profissional eu nunca vi um bebê tão banhado em mecônio espesso. O leito também estava sujo de mecônio. Por sorte eu estava com uma colega de turma, mas ela não sabia obstetrícia, pedi que chamasse as auxiliares de enfermagem e os médicos no quarto próximo e os avisos foram dados pelo auto-falante do hospital. Só chegaram as auxiliares que não sabiam atuar nestas situações. Levei a parturiente para a mesa de parto, o útero continuava sem atividade e relaxado. Pedi a minha colega que empurrasse delicadamente o bebê e ele nasceu azulão de tão cianosado, atônico, com parada respiratória e morte aparente, o mecônio jorrou junto com o líquido amniótico. Os auto-falantes continuavam a chamar pelos obstetras com urgência na sala de parto e nenhum médico chegava. Aspirei o bebê que continuava sem reação nenhuma, fiz massagem na região pulmonar, massagem cardíaca intercalada com oxigênio sob pressão para promover a expansão pulmonar. Continuei assim por vários minutos e o bebê respirou com dificuldade, continuei oxigenado sob pressão e o bebê diminuiu a cianose aos poucos. Após muito tempo esboçou um choro fraco e iniciou a coloração rosa em algumas partes, mantive-o com o oxigênio ambiente até que melhorasse, mostrei-o para a mãe e a minha amiga o levou com urgência para o berçário tentando encontrar um pediatra. Continuei a cuidar da mãe, realizando o secundamento, quando já estava tudo terminado os médicos obstetras chegaram perguntando o que estava acontecendo. Não sei de onde eles vieram, costumavam ir almoçar em uma churrascaria próxima a maternidade. Contei tudo que havia acontecido, mas não se comoveram, voltaram para o quarto. Ao conversar com a mãe, perguntei qual seria o nome do bebê e ela disse que seria Tadeu. As auxiliares de enfermagem já se referiam a mim como sendo a salvação da lavoura, e gostavam quando eu estava prestando assistência. Devido às experiências vividas por mim nesta fase decidi me dedicar à profilaxia do sofrimento fetal agudo, tema de minha monografia, atitude simples e valiosa que salvam a vida de muitos bebês, que médicos negligenciam. Escrevi na dedicatória da minha monografia de conclusão de curso: “Dedico esta monografia a Tadeu, um bebê, que me fez sentir a emoção do momento em que a vida superou a morte, dando início a uma nova existência através de minhas mãos. E a todos os bebês, que tenham a mão amiga de uma enfermeira obstetra cuidando de suas mães para lhes garantir um nascer seguro.” Acredito que Tadeu tenha ficado com alguma seqüela neurológica, rezei muito por ele e sempre me lembro daquele momento. Por isto que insisto com meus alunos sobre a importância da avaliação da ausculta dos batimentos cardíacos fetais. O que me deixa triste ainda, é eu conseguir detectar circulares de cordão somente pelo som, assim como o sofrimento fetal, avisar aos médicos e eles não acreditarem. Quando o bebê nasce, eles vêem que eu estava certa, disfarçam e saem de fininho, mas muitas vezes já é tarde e o bebê nasce mal. Quando posso digo bem alto e na frente de todos, “eu disse, eu estava certa”, já fiz queixa na Direção vária vezes, nada mudou. Devido a isto estou sendo prejudicada na Instituição, não temos apoio. Mas não desisti, estamos tomando providências legais.
Qual o seu sonho profissional? Ter condições financeiras para ser dona de uma maternidade e uma Casa de Parto no mesmo local, pois assim, com certeza a assistência humanizada estaria garantida. Servindo de modelo para outras instituições.
O que você gostaria dizer às suas colegas? Que não se deixem vencer pelo desânimo das dificuldades da nossa profissão, mas que saibam construir suas oportunidades e se unam pela categoria. Que tenham muito amor para cuidar de seus clientes.
O que você gostaria que as parturientes soubessem? (quer mandar uma mensagem?) Que elas têm direitos à assistência humanizada e devem se unir desde o pré-natal e exigi-los. Devem pedir que uma enfermeira obstetra esteja ao seu lado no pré-parto e no parto. E se possível procurar informações dos locais em que a assistência ao parto é melhor.
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