| Assim começou o dia em que virei mãe |
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| Por Ingrid Rocha - Fortaleza (CE)* | |
| 15 de Maio de 2007 | |
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Parto natural hospitalar Minha filha nasceu. Veio uma semana antes do que estava agendado. Nasceu dia 9 de abril, às 21h. Minha disposição tem sido bem oscilante e meu parto foi bem tumultuado. No dia 9 de abril, pós semana santa, acordo sem a menor vontade de ir trabalhar, sentia que precisava ficar em casa me preparando, descansando. O descanso do domingo parecia não ter sido suficiente para compensar os dois dias que passei acelerando no trabalho para facilitar tudo após o parto. 6h10 da manhã: ooops... Essa dor eu já senti antes! 6h17, mais uma vez. Seis minutos depois, outra cólica passageira. Estou entrando em trabalho de parto? Devo avisar ao Leo? 6h28, lá vem mais uma. Amor! Leo! Vem cá! Estou sentindo umas dores estranhas... Parece que são as contrações, mas ao mesmo tempo acho que não são pois estão vindo já de seis em seis minutos. Assim começou o dia em que virei mãe. Meu corpo me enviou sinais durante toda a semana santa, eu os segui, mas o maldito intelecto o tempo todo dizendo para que eu parasse de me guiar por instintos, já que "eu sempre interpreto tudo errado", atrapalhou um bocado no dia de maior importância. Diante das dores, meu marido insistiu que eu realmente não fosse trabalhar e se ofereceu para ficar em casa comigo, eu disse que ele fosse trabalhar, pois mesmo que eu fosse parir não seria para logo. Fui ao salão fazer depilação completa. Podem morrer de defender o feminino natural e etc, mas adorei estar todo depilada com cera, pari sem nenhuma vergonha de estar cabeluda e passei uns quinze dias sem me preocupar com axila, sobrancelha, buço... Enquanto depilava avisava a todo mundo que estava sentindo umas "dores estranhas", afinal eu era marinheira de primeira viagem e por lá tinha um monte de mulheres que já tinham tido filhos. Juntas deveriam saber mais ou menos o que estava se passando comigo. Todas afirmavam: é sim, são as dores do parto, mas ainda está bem longe ou então você é muito forte para dor. A esteticista ficou me prendendo no salão até quando meu marido ligou dizendo que estava em casa. Ela não queria de jeito nenhum me deixar sozinha e como moro pertinho do salão ela me levou até o portão de casa. Ligaram do trabalho e eu dei a notícia de que "se tudo acontecer como eu espero, devo estar com minha filha nos braços hoje à noite". Tudo bem aceito por todos que, claro, sempre perguntavam como era a dor e eu descrevia: uma pontada nas costas, que passa para a barriga e se espalha pelas pernas. Direitinho minhas cólicas menstruais, só que vem e depois passa, o que para mim é até melhor, pois na mensturação costumo a sentir essas dores e elas permanecem por uma tarde toda. De volta para casa, uma passada ao banheiro, nada de um "enorme catarrão"! Mas o "catarrinho" ou "clara de ovo" que vinha saindo há duas semanas estava agora vindo em maior quantidade e com uma cor pendendo para o marrom. Mais uma vez a dúvida: seria ou não o bendito tampão?! Como estava com consulta marcada para o início da tarde, deixei para perguntar tudo na hora da consulta. Mas, ao meio dia, não aguentava mais essa dor que vinha e voltava. Os intervalos agora estavam bem espaçados e irregulares, mas a dor persistia: indo e voltando. Passei no consultório e pedi para minha consulta ser mais cedo. Tudo certo. 14h30 estava eu na frente da médica. Descrevi todo o processo e falei logo: preciso saber se isso é o tal do falso trabalho de parto! E ela disse que sim. Pronto! Aquilo acabou comigo. Então era tudo mentira! Como é que eu, psicóloga, fico tendo crises de entrar em falso trabalho de parto? Com que cara vou olhar para o resto da humanidade quando tudo isso simplesmente passar? Nada de expor desespero! Mas doutora, tem certeza que é o falso?? Estou já tão cansada! E quando é que isso vai passar? Explicações sobre as incertezas do falso trabalho de parto, tudo que eu já tinha lido e relido, em livros e na internet. E eu que estava tão certa de que estava pelo menos na fase latente... Bem, é isso mesmo... Ainda tenho uma pequena discussão com a médica sobre o que fazer para passar a dor. Já que não era trabalho de parto, precisava que parasse de doer! Passei quase nove meses com essa nova ginecologista, pois sabia que ela era contra intervenções e iria fazer o meu parto normal da forma mais natural possível dentro de um hospital. Mas, naquela hora, só fiquei quieta depois que ela disse que se realmente tudo ficasse insuportável eu poderia tomar 10 gotinhas de Buscopan. Saio do consultório com a solicitação de internamento para o convênio, mas convenço meu marido a ir primeiro comigo resolver umas coisinhas de trabalho que eu tinha deixado pendentes. Nesse meio tempo, rodando de carro as dores vão ficando mais fortes, só que eu já não escutava mais meu corpo, só ouvia em minha cabeça a voz da médica dizendo que isso era falso trabalho de parto e que poderia passar tudo e nada acontecer, como também poderia evoluir e eu estar parindo amanhã ou depois...! Maridão preocupado, ainda me alerta: tuas dores estão ficando mais fortes, parece que você está com mais dificuldade. E eu respondo, muito pé da vida: deve ser por causa do carro! Quero ir para a casa! Passe em casa, me deixe e vá trabalhar, pode deixar a história do hospital para depois, só vou pensar em parir amanhã! 15h: volto para casa, passo pelo banheiro, mas não consigo nem ficar sentada no vaso. As dores aumentam demais, tanto as cólicas quanto as hemorróidas, que resolveram ressurgir nessa última semana. Como é que a fulana dizia que o vaso era um bom lugar?! Nem... Fico até às 16h procurando um jeito de melhorar a dor, não queria tomar o Buscopan, pois algo me dizia que podia ser o trabalho de parto e eu sabia que se tomasse a medicação tudo ficaria mais lento. 16h30, ligo para o Leo: Antes de voltar, passe na farmácia. Traga Nuscopan e chá de camomila. Não vou aguentar passar a noite com essa dor! 17h30, outra ligação para o Leo: Venha para a casa, agora! Um momento... Pronto! Enfim, vomitei! Foram dois jatos fortes e ao mesmo tempo que vomitava jorrei água por baixo. Não confundi com xixi, pois foram dois jatos fortes com cheiro adociado no momento em que eu vomitei e depois ficou vindo um líquido pouquinho que eu nem sentia escorrer. Amor, eu vomitei e está doendo muito. Vem para cá pois não quero ficar sozinha. Vou para debaixo do chuveiro. Não melhora nada, só fica o desconforto. Novamente tento o vaso, o relato da fulana estava bem nítido, eu iria parir com a assistência da mesma médica, mas de novo me pareceu o pior lugar do mundo: as dores atingiam proporções bem maiores. O Leo chega, procura o Buscopan que temos em casa, mas eu digo para ele contar os intervalos, pois vou ligar para a médica e não consigo mais pensar em nada. Contrações vindo de 4 em 4 minutos. Uma rápida passada no consultório dela e ela me encaminha para o hospital: Está com 6 cm de dilatação, pode ir para o hospital, mas vá com calma, não precisa de pressa. Pronto! Agora sim, faltava pouco e eu iria parir. Tudo fez mais sentido para mim, podia me sentir mais confiante. Chegando no hospital enfrento outra novela que, mesmo quinze dias depois, não digeri. Apesar de ter visitado o hospital duas vezes e ter consultado o plano de saúde e os dois terem afirmado que no caso de parto normal o atendimento acontece sem precisar de autorização prévia, passei quase duas horas esperando sentada em uma cadeira do rodas junto com todos os pacientes da emergência!! Nessas duas horas, o que eu mais pensava era que deveria ter saído de casa de vestido e sem calcinha, pois ficava com medo de minha filha nascer e tudo dar errado porque estava de calças. Gritei duas vezes pedindo socorro. Fiquei quase todo tempo sozinha, pois sempre que eu Leo chegava eu mandava ele ir resolver logo tudo e o pobre tinha que sair correndo para tentar fazer alguma coisa. Até que ele parece que captou meus pensamentos e me levou para a maternidade quase atropelando maqueiros e enfermeiros. Na maternidade ainda continua tudo difícil. E eu me concentrando para a menina não sair antes d'eu estar sem calcinha. Até que a médica e o Leo conseguem que eu entre na sala de exames "só para vestir o avental"... Lá a tortura continua, o Leo ansioso com o mal atendimento no hospital, enfermeiras entrando e saindo da sala brigando com minha médica pois ela "não podia pensar em fazer o parto ali" e eu, nos intervalos, ouvindo a doutora dizer: faça força, vc precisa fazer força. Acho que atrapalhei tudo pois deixei um monte de contração passar sem fazer força, tudo que eu queria era desmaiar e tudo que eu falava era: Eu não consigo, não tenho força... Faz parar essa dor. Um tempo depois a médica pergunta se eu me incomodo muito de ir para a sala de parto, pois o hospital estava criando muita confusão. E lá vamos nós, ainda com uma enfermeira chegando com a maca e dizendo para eu deitar mas com a cabeça no sentido em que estavam meus pés...! Parecia piada. Fiquei parada na cama de exames e olhando para a cara dela: Você não quer que eu "vire" 180º, né?? Enfim. Fomos para a sala de parto e quando eu pensei que tudo de ruim que podia ter acontecido já foi, entra o neonatologista falando do problema de azia que ele teve e que agora o fulano de tal tinha resolvido com o remédio tal, pois os remédios x, y e z não tinham funcionado. Na hora eu até pensei que eu devia ao menos memorizar os nomes dos remédios, pois no final da gravidez tive muita azia. E lá vamos nós, sem conseguir desmair, a médica dizendo para fazer força, o Leo mandando eu expirar na hora de fazer força e o neonatologista felizmente de boca calada. Não lembro de ter sentido a enorme vontade de fazer força, simplesmente fazia porque tinha que ser feita e a médica disse que mais umas 5 contrações e a minha filha nascia; três depois faço força até onde tenho e a menina fica enganchada na minha vagina o pior lugar para mim e para ela. O neonatologista começa a mexer em umas máquinas que fazem a médica olhar e comentar algo como: acho que não precisa, mas entendo que você se preocupe em checar. Sendo assim, na contração seguinte lá sigo com toda minha força e um enorme grito: Vai rasgar!!!!!!!!! E às 21h escuto um estourinho de champanhe, depois mais um e estou com minha filhota na minha barriga. Posso por as mãos nela, as dores passaram e tudo que sinto é o corpinho da minha menina pequenino e me pedindo abrigo. .......... Depois dessa caminhada, passei ainda umas 30 horas de enorme euforia, só dois dias depois é que me bateu a deprê pós parto. Posso dizer que o parto normal é realmente muito bom com relação a recuperação. Estava de alta do hospital no dia seguinte, saí andando e bem. Continuo sem ter levado nenhum ponto na minha vida, a Iúna nasceu pequenina, com 3 quilos e 48 cm e o tempo que ficou enganchada na vagina não causou nenhum problema, suas notas (Apgar) foram 9 e 9. O que senti rasgando foi uma leve laceração, a médica até pensou em dar 1 ponto, mas achamos melhor deixar sem pontear mesmo. E nada no mundo pode compensar a felicidade de estar sentada, vendo e falando com sua filha no dia em que ela nasce, a sensação de poder embalar caminhando na noite em que vem a fome dela e o seu leite ainda não chegou e a vitória de hoje ter meus seios jorrando leite e nenhuma dor no abdomen que me impeça de estar junto da recém-nascida mais linda do mundo. * Ingrid Lira Rocha tem 27 anos, é psicóloga e mora em Fortaleza (CE).� HTML Comment Box is loading comments...
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