| O parto domiciliar na origem das Amigas do Parto |
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| Por Adriana Tanese Nogueira | |
| 08 de Novembro de 2005 | |
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Em 16 de fevereiro de 1998 dei à luz minha filha Beatriz, em minha casa no Rio de Janeiro. Foi uma experiência extraordinária, que continua repercutindo até hoje.
Com a confirmação de que estava realmente grávida da menina, que eu esperava há tanto tempo, tomei algumas atitudes. A primeira foi a de procurar livros adequados. A partir de um dos livros comprados, tive uma visão completa e objetiva do parto: como acontece, quais são as diversas posições que uma mulher pode adotar durante o trabalho de parto e quais são os locais onde pode ocorrer o parto. Dei-me conta, então, de que eu queria dar à luz em minha casa. Conversei com meu marido e ele se engajou no projeto, entusiasmado (ele já tinha três filhos nascidos de cesárea eletiva, ou seja, sem necessidade médica e tinha sido excluído do nascimento deles). Eu e meu companheiro começamos a freqüentar juntos o curso de ioga: além da aula prática, havia uma aula “teórica”. Nesses momentos de conversa, descobri que minha intuição estava certa: o parto de cócoras é recomendado na literatura internacional como a mais segura, rápida e menos dolorida posição para parir. É também indicado pela Organização Mundial de Saúde. E, mesmo que não houvesse pesquisas científicas, há a experiência concreta de milhares e milhares de mulheres de todas as culturas e tempos, que, se deixadas livres para seguirem seus instintos, tendem a se acocorar espontaneamente na fase expulsiva, quando o bebê está para nascer. Dei à luz minha filha de cócoras, não para seguir um modelo, mas porque é realmente assim que dá vontade de ficar. O curso de ioga mais as conversas e explanações ajudaram muito, mas não foram suficientes. Tive que tomar consciência dos condicionamentos internos que limitavam minha ação e inibiam meu desejo. Tive que enfrentar meus medos, superar a impressão de estar indo contra uma consciência coletiva que parecia pressionar para que eu seguisse o caminho padrão: me entregar nas mãos de um médico e de um hospital... Afinal, ainda se pode morrer de parto, eu nunca tinha vivido um parto e não fazia a menor idéia de como iria lidar com a dor. Passei por um longo e tenso último mês e quando finalmente o deixei para trás, estava tranqüila. E entrei em trabalho de parto. As primeiras seis horas passaram rapidamente. Entre uma contração e outra, dormia profundamente, recuperando as energias. Meu companheiro marcava o horário e a duração de cada contração. Encontrei uma posição agradável semi-reclinada, num colchonete no chão, e lá fiquei. Tive duas visões em momentos diferentes: primeiro, vi uma Madonna, sorridente e, depois, um par de anjos: todos amavelmente assistindo ao parto. Olhei para o teto, os vi, fechei os olhos e adormeci até a contração seguinte. As outras seis horas até minha filha nascer foram relativamente rápidas. Andei pela casa, me agachando a cada contração. De fato, agachar-se é espontâneo. A dor? Era forte, mas suportável, em nenhum momento pensei em ir ao hospital para receber anestesia. Tomei um banho de alívio e comecei a perceber que estava entrando em outra fase, a expulsiva. Eu estava de cócoras no final da fase expulsiva. Estava demorando. A minha acompanhante fazia cromoterapia na vulva, aliviando efetivamente a dor. A obstetra, então, fez um toque (o segundo em todo o trabalho de parto) e traduziu minha vivência daquele momento: disse-me que me encontrava na “fase da covardia”! Parece que vai estraçalhar tudo, mas não vai. Todas as mulheres passam por isso, dizia ela sorrindo e olhando para a pediatra que, deitada no chão, balançava a cabeça para dizer sim. Tomei consciência de que o que sentia era medo, e assim o medo passou. Resolvi que minha filha iria nascer naquele momento! Chega de demoras! Na contração seguinte, foi como se ela fosse cuspida de dentro de mim: estava bem na minha frente e finalmente a vi, pela primeira vez em minha vida. A vi toda, inteira, com total clareza. A vivência foi tão intensa e mágica, que não consigo lembrar o que ocorreu logo em seguida. Parece que o tempo parou e assim, de cócoras, descobri os mistérios incríveis de um ser humano saindo pelo canal vaginal, inteirinho, perfeito, limpo, “novinho”! A primeira visão de minha filha ficou gravada meses e meses na minha mente. Era como se a visse sempre na minha frente, com a mesma intensidade e nitidez. Num só instante, parece que a examinei inteirinha. Gravei em minha mente cada parte de seu corpo. Ainda hoje, após seis anos, a observo e a comparo àquela imagem. Reconheço a mesma pessoa, o mesmo jeito: pequenos detalhes que revelam uma personalidade. Tudo estava presente naquele momento: os olhos grandes abertos, a boquinha vermelha em forma de coração, o jeito mimoso e charmoso, os longos e finos dedos, o narizinho perfeito... Uma explosão de alegria, de vida, de energia tomou conta de mim por vários dias. Pela primeira vez, senti-me poderosa, realmente poderosa. Após alguns dias, me olhei no espelho e percebi que meu corpo estava ainda enorme, em relação ao período anterior à gravidez. Surpreendi-me porque não havia nem pensado nisso. Dei-me conta de que meu tamanho não importava nem um pouco, todos os cânones de beleza externos haviam desaparecido! Eu estava radiante, viva, poderosa. Acredito que este seja o que se chama de “estado de graça”. Um dia, após alguns meses, durante a amamentação, percebi uma força muito maior do que eu me atravessando, algo que vinha lá do fundo da minha alma. Identifiquei o arquétipo da Grande Mãe ganhando espaço em minha vida, em minha nova identidade de mulher. Pois, apesar de toda a maravilhosa vivência do parto, eu percebia que esse negócio de ser mãe não acontecia de uma hora para a outra. A gente dá à luz um ser desconhecido! Ele pode até ser “carne da nossa carne”, mas de fato não o conhecemos. A realidade é que há duas pessoas ali que se deparam, em um certo momento da vida, uma com a outra. No começo eu não conseguia sequer me chamar de “mamãe”. Era o início da relação. Eu não sabia como lidar com aquele pequeno ser que parecia tão frágil e delicado. Temia esbarrar pelos móveis e portas da casa enquanto a carregava. Percebi-me um pouco desajeitada... Fazer massagens, a partir do seu primeiro mês de vida, ajudou a me familiarizar com o corpinho de minha filha. Ela gostava e eu gostava. Duas vezes ao dia, uma shantala nos aproximava progressivamente. Descobri também ser o meu um caso não muito freqüente no panorama obstétrico brasileiro, muito mais vinculado à tecnologia que ao respeito dos processos naturais do corpo feminino. As poucas mulheres que conseguem escapar do caminho de pedras da obstetrícia moderna, responsabilizando-se e seguindo sua intuição de como deveria ser seu parto, relatam ter vivenciado uma experiência profundamente transformadora em suas identidades de mulher: um ingressar na maternidade com outro espírito, carregadas de uma força interna (e externa – pois mudaram as regras do sistema) que bem poderia se chamar de “empoderamento”. O site, apesar de instrumento relativamente democrático e útil, não foi, porém, suficiente para acompanhar o amadurecimento ocorrido nestes últimos dois anos. Por isso, fundei em 9 de junho de 2003, junto a um grupo de pessoas, a Associação Amigas do Parto, uma Organização Não Governamental que tem uma atuação mais abrangente, inclusiva e efetiva, fora e dentro do mundo virtual. Sua finalidade é tecer uma rede de relações e troca entre os diversos atores do cenário obstétrico brasileiro; informar, divulgar, dar suporte às mulheres e suas famílias, oferecer espaços de atuação, promover eventos, orientar e, enfim, contribuir para a promoção de um novo paradigma de atendimento à grávida e à parturiente – o que inclui, inevitavelmente, uma nova visão da mulher, de seu corpo, de sua sabedoria e intuição, assim como uma nova relação social entre médico e “paciente”, uma redistribuição de poderes e responsabilidades, uma revisão das relações de autoridade advindas do status social e do saber acadêmico, uma maior consciência e participação como cidadãos. Quem já ouviu uma mulher falar sobre seu parto, quem já prestou atenção em sua necessidade de compreender uma cesárea sofrida ou sua experiência de parto mal vivido, quem já viu a luz brilhar nos olhos de uma mulher que viveu um parto “empoderador” tem seu coração preenchido por um profundo sentimento de ternura e respeito. As mulheres merecem mais do que poder votar e poder se crucificar entre trabalhos alienantes e tarefas domésticas. As mulheres merecem poder começar a contar a história de seu ponto de vista. Uma história que começa pela voz de suas entranhas e de seu coração, mas que é elaborada pela sua inteligência e que será transmitida a muitas outras, se pusermos em práticas nossas habilidades de criadoras e tecedoras sociais. HTML Comment Box is loading comments...
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