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Gracias a la vida. Viva Iaciara PDF Imprimir E-mail
Por Adelise Noal Monteiro*   
04 de Março de 2007
Parto normal
Nasce uma estrela em Sudbury, Canadá, na lua nova do signo de Peixes. Lua em Áries, às 12h33, Canadá, 15h33, Brasil. Dia 21 de fevereiro, Kin 159, Tormenta Elétrica Azul.
“ Ativo com o fim de catalisar
Vinculando a energia
Selo a matriz da autogeração
Com o tom elétrico do serviço
Eu sou guiado pelo poder da abundância”

Onda Encantada 13 da Terra vermelha.

A história deste trabalho de parto começa no dia 20 à tarde. O tampão mucoso e um pequeno escape de líquido amniótico anunciam que a hora é chegada. Um elo espiritual se forma apesar da distancia Canadá-Brasil pela comunicação entre as mulheres envolvidas mais intimamente no processo: mãe, avó e tia. Natascha a parturiente, Sahádia sua mãe e Adelise sua tia aqui no Brasil.

Ao receber a notícia dos pródromos do trabalho de parto, abri o correspondente trabalho espiritual, invocando todos os seres que me auxiliam neste ofício, mantendo acessa uma vela junto a uma foto da Natascha, recordação de sua avó, ainda como menina. Enquanto que lá, no Canadá, eram feitos os preparativos finais.

Há cerca de mais de um mes, ela vinha tomando uma colher de sopa diária de Santo Daime. Na última semana passou a tomar 1 colher de sopa, 3 vezes ao dia e a partir dos primeiros sinais do trabalho de parto: uma colher de hora em hora.

O banho de imersão na banheira, sua escolha para relaxar e suportar melhor as dores da contração uterina do primeiro período do trabalho de parto, foi de grande ajuda na preparação para a experiência intensa da qual ainda não se sentia pronta.

A gravidez aos 21 anos tinha trazido tantas mudanças... o repensar de seu ambiente como um todo. Mudou de cidade, de casa, mudou os planos de estudo e trabalho. Tudo então, centrado na construção do acolhimento daquele novo ser que fôra semeado como as sementes de flores do campo que a natureza se encarrega de plantar na primavera, depois de um rigoroso inverno. E, como a natureza tem seu próprio tempo, resta a nós nos sincronizarmos em harmonia.
Assim foi...

O Santo Daime fez a ligação com as origens.

Aqui no Brasil era firmado o mesmo compromisso na passagem da noite. Dormi em concentração acompanhando o trabalho de parto como se lá estivesse.

Na casa da praia, no quarto da vovó Célia, próximo do telefone, na cama do vovô Antônio. Curiosamente o Mica quando voltou de seu passeio noturno praiano deitou-se ao meu lado e passamos bem juntos na cama de solteiro. Mais tarde, pude entender que estar com ele ali era importante, pois meu espírito faria um deslocamento espacial e o Mica com sua pureza de menino seria o guardião do meu corpo que ali permaneceria durante o vôo da alma.

Acordo às 7h50, Brasil, 4h50, Canadá com o hino de natal, Noite Feliz. Concentro e adormeço de novo até às 10h30. Levanto mas não consigo ficar de pé pois uma vertigem invade meu corpo. Volto a deitar e adormeço novamente. Retorno às 13h, 10h do Canadá. Quase não almoço, não é possível. Ligo pra saber notícias. Preciso foi analgesia peridural e por fim uma pequena indução com ocitocina para o seguimento da dilatação.

Ainda com vertigem tenho que deitar, mas não adormeço mais. Às 14h30, 11h30 do Canadá levanto novamente e preparo um banho. Fico por mais ou menos uma hora deixando a água correr sobre meu corpo especialmente na barriga enquanto minha alma viaja invocando com força a imagem da Nossa Senhora da Conceição, da Madrinha Cristina, parteira da floresta que sempre chamo comigo nestas horas, a força das águas da Rainha Iemanjá, Mestre Irineu, Padrinho Sebastião. A corte celestial que acompanha as mulheres nesta passagem especial, me transporto em pensamento até Sudbury, na maternidade junto com Natascha e Sahádia chamo a força e o auxílio espiritual para o nascimento.

Rezo e canto por fim um hino que vem na minha mente quando o bebê está prestes a nascer.

“ Salve esta luz que alumia, que vem nos alumiar.
Salve a força do Padrinho, que veio um rebanho juntar.
Salve o conforto da força, a força de Iemanjá.
Salve o comando das águas e salve a Rainha do mar.
A força é quem ensina, a força vem ensinar.
A força traz disciplina, para quem quiser escutar.
Canto na força do vento, canto na força do mar.
Canto louvando a vida e quero o Padrinho louvar.”


Sinto que posso sair do banho. Vou para o quarto e me visto escutando e cantando o hinário da Madrinha Cristina. Pouco a pouco me dou conta de que a vertigem estava passando e era substituída por um estado de força e alegria. Toca o telefone, vou rápido, sei que é o Rozinho, meu irmão, pra contar que nossa menininha havia nascido.

Não foi preciso fazer episiotomia, não houve laceração do períneo. Nasceu junto de seu papai, sua vovó e sua titia no espiritual. Minha presença fisicamente não foi possível, só que a conexão de almas estabelece outros caminhos de proximidade e, estive sim presente!

Pelo xamanismo se sabe que o xamã pode em suas viagens extáticas se deslocar em espírito para cuidar de um doente, salvar uma vida. Foi o que aconteceu. Lá, em espírito durante o trabalho de parto, especialmente no período expulsivo que correspondeu ao tempo em que estava no banho, confirmado pelos desígnios da sincronicidade.

O que viabilizou esta grande experiência foi a confiança na vida espiritual que nos sustenta e os laços de amor que desfizeram a distância.
Durante toda gestação, Natascha e eu através das nossas conversas fomos construindo no imaginário aquele momento especial. Passamos pelos medos, inseguranças, obstáculos... principalmente a sombra da impossibilidade de  parto normal por causa de um acidente ocorrido 4 anos antes que gerou uma lesão ocular.
Os sonhos na gravidez apontaram a direção da via instintiva que ia ao encontro da sua vontade determinada de viver o parto pela via natural.

O nascimento sempre é um milagre que cada um reconta conforme suas particularidades a história do mesmo milagre. Filha de pai irlandês e mãe brasileira, ambos com famílias residindo no Canadá, neste ambiente nasce uma menina. Ela carrega no nome sua herança indígena, Iaciara, espelho da lua, flor das águas.
Benvinda mais uma guerreira lunar!

Benvinda Iaciara com todo amor de seus bisavós, tios, tias, primos, primas do Brasil!
Parabéns mamãe, papai, vovô, vovó e titia Yasmin! Sem esquecer das suas parentes caninas Denga e Mima!

Não existe distancia para o amor!

Termino o relato das impressões vividas e sentidas no desenrolar destes acontecimentos com uma estrofe do hino do Mestre Irineu que na tradição das parteiras do Santo Daime é cantado quando nasce uma criança para receber suas bênçãos.

“ Sol, Lua Estrela
a Terra, o Vento e o Mar
é a luz do firmamento
é só quem eu devo amar”


* Adelise Noal Monteiro é médica pediatra, psicoterpaeuta junguiana, membro da ONG Amigas do Parto. Atende partos domiciliares e reside em Porto Alegre (RS).�
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