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Um parto natural em Casa de Parto PDF Imprimir E-mail
Por Renata - Rio de Janeiro (RJ)*   
07 de Novembro de 2006
Durante todo o sábado, dia 23 de Outubro, senti cólicas e desconfiei de que o parto estaria próximo. O palpite era que segunda ou terça-feira o bebê estaria chegando... lêdo engano! Eu e meu marido Rafael fomos nos deitar. Às 3hs da manhã eu acordo sentindo umas cólicas e vontade de fazer xixi. Comentei com o Rafael que as cólicas estavam fortes. No banheiro, eu percebi que o corrimento que costumava descer estava com maior fluxo: alguma coisa estava acontecendo. Sai do banheiro e as contrações fortes continuavam.

O Rafael começa então a contar os minutos: 4 minutos... 4 minutos... 6 minutos... 8 minutos... 4 minutos...

- O que a gente faz agora? É melhor ligar para a Casa de Parto?
- Liga!
- Liga você, eu não quero falar.
- Eles mandaram a gente ir para lá para examinar.
- Liga para a doula!
- Ela também falou para a gente ir para lá agora!

As malas já estavam arrumadas, apenas trocamos de roupa e ligamos para o Wallace, amigo do Rafael, que combinou de nos levar. Não queria pedir ao meu pai, porque ele não sabia da minha idéia de ter o bebê na Casa de Parto e achei que não fosse aprovar, que fosse ficar assustado e coisa e tal. A Casa de Parto em nada se parece com um hospital: somos atendidas por enfermeiras obstetras, não tem área hospitalar, enfermaria, UTI, médicos, berçário... Lá é lugar para quem quer ter parto da maneira mais natural possível, como a natureza manda, como nossas avós faziam em casa.

Acordei a minha mãe, avisei a ela que nós já estávamos indo e contei mais ou menos onde era, o que era e como era o local.

Chegamos alguns minutos depois e logo fui examinada: 6 cm de dilatação, a bolsa estourou, está em trabalho de parto, pode ir para a suíte.

E lá, na suíte Parteira Lourdinha, com ar condicionado, cama de casal, moisés para o bebê, aparelho de som com música ambiente, incenso, estante, revistas, uma pia e o banheiro com banheira, eu fiquei durante todo o trabalho de parto.

A doula chegou algum tempo depois e, junto ao Rafael, ficou comigo no quarto. Eles me faziam massagens, que ora acalmavam, ora irritavam, me falavam palavras de incentivo, faziam carinho, conversavam... a doula foi um anjo, teve muita paciência, me sugeria posições que poderiam ser melhores para agüentar as contrações, falava para eu caminhar, fazia massagens. O Rafael talvez tenha sido o que mais sofreu... rssss... Ele ficou comigo todo o tempo, até nos momentos que eu ia no banheiro, eu não queria que ele saísse de perto de mim nem um segundo.

Abrindo um parênteses, o banheiro é o melhor lugar para se ter um bebê!! Se puderem, tenham seus filhos na privada! Todas às vezes que eu sentava na privada, eu me sentia muito bem, as contrações ficavam mais fáceis de suportar, parece que o corpo encaixa de maneira perfeita na privada para se ter um bebê. A privada é o que há!

Voltando ao Rafael, ele me dava segurança, eu me sentia bem com ele ali, me apoiando enquanto eu acocorava, me ajudando a girar sentada na bola suíça, me fazendo carinho, abraçando, deixando eu puxar a camisa dele, morder a orelha, gritar no ouvido dele, agarrar... Ele sempre muito nervoso, mas sem dizer nenhuma palavra que pudesse desanimar ou desandar o trabalho de parto.

Mais tarde ele me disse que só conseguiu suportar tudo aquilo porque tinha visto comigo os vídeos que a doula nos havia emprestado e tinha uma idéia mais ou menos de como era. Caso contrário teria se desesperado e pedido para fazerem uma cesárea em mim, porque eu realmente estava sentindo muita dor.

A dor é hard core. No início é mais suportável, ela vem forte porém em ondas rápidas e com alguns intervalos de minutos, depois vai ficando punk, vem de 30 em 30 segundos, em ondas demoradas e muuuuuuito mais intensas, doloridas mesmo. Você sente algo muito forte dentro do seu corpo descendo durante as contrações e isso dói.

As enfermeiras obstetras no início apareciam de quando em quando para ver como estava indo e, a certa altura, tirar a pressão, ver a dilatação... ainda 8cm... não podia entrar na banheira ainda, só quando estivesse com 9, 10, porque a água quente poderia atrapalhar a dilatação nesse estágio. Mas já dava para sentir os cabelinhos dela, chegando. Sinta os cabelos, me disseram.

Senti um nervoso, mas coloquei a mão. Graças a Deus, o bebê estava próximo. “Sinta você tambem, pai.” Alguém falou para o Rafael. Ele colocou a mão e sorriu para mim.
A partir daí começou a chorar.

Em determinado momento alguém chegou ao meu lado me abraçou e fez carinho. Não sei quem foi, mas lhe sou muito agradecida porque aquilo me fez sentir muito melhor, amparada, não sei, foi algo que me marcou e foi importante para mim, naquele momento.

Algumas vezes eu me irritava com a enfermeira obstetra. Eu ali sentindo a maior dor, de não me agüentar, às vezes achando que ia ter um treco, e ela me dizia para relaxar, para me concentrar na respiração!! Eu tentava ao máximo fazer o que ela dizia, apesar de estar xingando de tudo quanto era nome... no fundo, sabia que só ia me ajudar a trazer meu bebê ao mundo mais rápidamente.

Várias vezes também lembrei de relatos das listas de discussão. Consegui me manter consciente todo o tempo, lembrando de coisas, me identificando ou tentando seguir dicas que lembrava, prestando a atenção no que conversavam. Só mesmo na fase do expulsivo é que a única coisa em que você pensa é no seu bebê nascendo, na dor hard core e na força que você precisa fazer.

Eis que chega o momento: colo amolecido, 9 quase 10 de dilatação. Pode ir para a banheira.

Aaaahhh que felicidade! Já estava acabando! Eu ia para uma banheira com água quente, relaxar... o bebê estava vindo.

Sentei na banheira e as contrações vindo e vindo... e eu ao ponto de não agüentar mais. Várias vezes durante o trabalho de parto me desesperei, chorei um choro sem lágrimas, dizendo que não queria mais aquilo, que não agüentava mais, que se tivesse uma anestesia eu tomava naquele momento mesmo. A doula apenas sorria e me dizia para ficar calma, que no momento que eu achasse que não ia mais agüentar o bebê ia chegar. “O único treco que você vai ter é a Alanis”, me lembro dela falar.

E então eu começo a sentir a cabecinha chegar... alguém fala: “Agora só depende de você, você precisa fazer força para ajudar esse bebê a nascer.” E foi o que eu fiz. Uma força animal, pena que a gravação no vídeo não monstra o que eu realmente senti. Engraçado como os vídeos de parto enganam. Você parece tranqüila, exatamente no momento que você acha que vai colocar todos os seus órgãos para fora, de tanta força que faz misturada com a dor que sente. E eu gritava e gritava. Nem tanto pela dor, mas gritar me fazia sentir solta, ajudava a me soltar.

Uma contração. Saiu a cabecinha!
- Saiu a cabecinha! Olha Renata, olha!!!
- Não, não, não, eu não quero (de olhos fechados, aliás, apertados)
- Olha, olha!
- Ela está nervosa..., o Rafael diz.

Não olhei. Diz o Rafael (com lágrimas nos olhos) que quando saiu a cabeça ela ficou olhando assim para eles, que foi lindo. Eu não tive coragem de olhar. Não queria ver, queria que aquilo acabasse logo.

E uma calmaria...

- Vai demorar muito?
- Uma contração. Diz a doula.
- Uma não, duas. Diz a enfermeira obstetra.

E vem mais uma contração. Argh, essa lacerou o períneo. Muito sangue na banheira.

Mais uma e finalmente... nasceu! O alívio e a felicidade se misturavam.. todos estavam felizes! Rafael estava em lágrimas. Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo.

Estava fraca, não sabia o que fazer. Colocaram o bebê no meu colo. Branca, ainda sujinha de vérnix. E eu sem saber o que fazer, conversei com o bebê, disse para não chorar. Rafael me beijou.

Eu nem mesmo sabia segurar o bebê e todos querendo ver o rostinho dela. Depois de algum tempo, o Rafael corta o cordão umbilical, nervoso. E então eles levam o bebê para a sala ao lado, examinar.

Eu continuo sentava na banheira, esperando a placenta sair. Deu muito trabalho porque uma membrana continuou dentro de mim. Fiquei muito fraca e tremia de frio. Tomei um banho e fui para a sala de pós-parto.

Foi muito difícil essa parte, eu estava fraca e dolorida e ainda senti muito mais dor para tirarem a membrana de dentro de mim, demorou muiro, era bem grande. E as pessoas lá não são muito delicadas para tirar membranas...

Depois ainda picada para o soro. Picada para a anestesia. Dói muito ser picada na vagina. E depois alguns pontos.

Rafael entrou algumas vezes com ela para eu ver. Linda, toda enroladinha, quietinha, só observando. Conseguiu mamar logo na primeira tentativa, eu ainda ali deitada naquela cama, acabada, com fome.

Tudo pronto e terminado fui para o quarto, ainda zonza. Trouxeram um café da manhã com mamão, chocolate quente, pão e queijo. Ainda bem! O bebê ficou bastante quietinho e nós éramos só felicidade, apesar de estarmos exaustos.

12 horas depois, como estava tudo bem comigo e com a Alanis (nasceu com apgar 9/10), recebemos alta e voltamos para casa.

Foi uma experiência única, difícil para uma menina de 19 anos, que estava morrendo de medo do parto, cheia de paranóias. Uma experiência que ficou muito marcada na minha vida. Foi um parto maravilhoso, agradeço muito a todas as pessoas envolvidas, os que me ajudaram a conseguir realizar meu sonho de ter meu bebê de maneira natural, sem episiotomia, sem ocitocina sintética, sem anestesia e na água com uma equipe maravilhosa, num ambiente familiar.

Credito tudo isso não só a essas pessoas, como também a mim que nunca deixei de acreditar que era possível e ao Universo que não me abandonou e, como sempre, conspirou a meu favor.

* Renata Arruda tem 21 anos, é estudante de Pedagogia, mora no Rio de Janeiro (RJ). Seu email: goddes_of_immaginary@yahoo.com.br�
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