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Minha gravidez foi bastante saudável. Primeira filha, portanto, ansiedade em dobro. Queria dar o que houvesse de melhor, e tecnologia é isso. Portanto, o pré-natal com a Dra. M., a mais requisitada ginecologista e obstetra da cidade, foi feito com todo cuidado.
Muitos exames de sangue, vacinas, ultra-sonografias, pílulas de ferro e vitamina C: tudo para que meu corpo fosse rigorosamente corrigido e registrado. Guardava tudo numa pasta como lembrança daquele tempo, da minha primeira experiência como mãe. Por outro lado, me preparava para um parto sem dor, natural e de cócoras. Caminhava bastante (até demais, 90min por dia) bebia muita água, fazia yoga e massagem no períneo durante o banho. E ainda participava de algumas listas de discussão na internet, o que me colocou em contato com opiniões bem diferentes sobre todo o processo gestacional, e totalmente opostas à cultura da minha realidade local e familiar. Abracei aquele modelo, sonhei, desejei e decidi que queria meu parto de cócoras, como as índias.
Tudo começou no sábado de manhã. Acordei com um desejo indescritível de ir à praia. Precisava andar na areia úmida. Molhar os pés no mar, tomar banho, sentir a natureza e toda sua força e beleza...
Foi maravilhoso... a sensação era de comunhão com Deus, que à sua maneira conversou comigo, e me tranqüilizou. Aquele vento forte no rosto, andando, andando, com aquele barrigão, nada mais natural. O contato com a areia molhada, o vento, o sol, a natureza como um todo. Eu só precisava daquilo.
40 semanas e 6 dias. Final de semana normal, tudo em paz. Sábado à noite saí para comer um pastel delicioso com meus pais, o Henrique e a minha afilhada Isabela. No domingo fiquei em casa, bordei muito. A noite resolvemos ir à missa. Eu queria muito ir para pedir à Nossa Senhora um bom parto normal, rápido e emocionante com tudo que eu tinha direito. Fomos a pé. Foram 20min de ida, mais 20 de volta e ainda passamos no supermercado para comprar pão.
Cheguei em casa, já sentindo umas Braxton Hicks (contrações preparatórias para o trabalho de parto propriamente dito) meio estranhas, mais fortes. Assisti um filme com meu marido, e aquelas contrações foram aumentando, mas ainda indolores. Apenas incomodavam um pouco, não liguei e fui dormir. As contrações vinham a cada 5 min, aumentando um pouco, mas para mim aquilo nada mais era do que o famoso “falso trabalho de parto”.
Às 2hs da manhã acordei com uma contração mais forte e dolorida. Levantei rápido e senti o liquido escorrendo. Toquei minha perna, estava toda molhada. Acendi a luz. Era a bolsa rompendo. Acordei o Henrique, fui ao banheiro. Não sentia nada doloroso, nada mesmo, só aquele liquido abundante escorrendo sem parar. Aquilo começou a me deixar nervosa, não parava, era claro com o cheiro de água de côco, mas não parava de descer, será possível? Fiquei nervosa demais, tanto que tremia muito. Senti que tinha chegado a hora, mas não conseguia acreditar... Eu não estava preparada para ser mãe, para receber aquele bebê, nem sequer tinha arrumado as coisinhas dela, nem as minhas! Pensava que demoraria mais uns 15 dias... Que nada, eu já estava a termo.
Fui ao banheiro, depois enchi uma garrafa de 1 litro de água. Tinha que beber muita água, pois sabia que o corpo precisava renovar o liquido e bastava me manter hidratada.
Minha primeira reação foi telefonar para minha doula e amiga. Liguei uma, duas, três vezes, mas a ligação não completava. Tentei o celular do esposo dela, mas estava desligado. Então liguei para a enfermeira obstétrica que eu havia contratado para me acompanhar durante o trabalho de parto. A orientação que ela me deu foi para ficar calma, e ligar imediatamente para a minha obstetra.
Como eu já esperava, a Dra. M. me mandou logo para o hospital mais próximo, onde eu deveria fazer um exame para ver a quantas andava o trabalho de parto. Não entendi, já que eu não sentia nada, como poderia estar em trabalho de parto? Mas resolvi confiar nela.
Enrolei uma toalha de banho na calcinha, tamanha era a quantidade de liquido que descia, e fui me arrumar. Já eram 4h da manhã quando terminei de arrumar tudo e ligar para minha mãe avisando. Chegamos no hospital, esperei mais meia hora para ser atendida pelo plantonista. Enquanto esperávamos, fiquei andando de um lado para o outro da recepção, bebendo água, com a garrafa debaixo do braço, acompanhada do meu marido, pais, irmãos, quem quisesse.
Eu me sentia como um guerreiro indo para a guerra. Estava munida de água, portanto eles não poderiam reclamar da bolsa rompida – era o que eu imaginava! Aguardei, ansiosa, frágil, vulnerável sem me dar conta de que estava entrando em terreno “inimigo”...
O plantonista veio morrendo de sono... mandou que eu deitasse, fez o exame de toque. Saiu sangue vivo, mas não doeu. A essa altura eu já estava com duas horas de bolsa rota. Depois de algumas perguntas sobre a gestação e o rompimento, ele escutou o coração da Thais. Demorou um pouco para encontrar o foco, aqueles minutos quase me mataram de tanta ansiedade... enfim ele conseguiu, (perfeito!! 140BPM) mas aquele exame denunciou um fato, o bebê estava muito alto. Ou seja, para o modelo obstétrico hospitalar tradicional, meu caso, (duas horas de bolsa rota, bebê alto, nenhuma dilatação, colo do útero grosso) era justificativa clara para o procedimento da moda: cirurgia cesareana. Então, o médico anotou alguma coisa e me deu uma guia de internação. Procedimento: cesárea.
Aquele diagnóstico me encheu de revolta. Mas como podia ser? É claro que eu ia parir normal! Voltei para a recepção, minha família inteira estava lá na expectativa. Eu não largava a garrafa de água. Liguei para a minha medica, contei tudo e fui logo avisando a ela que não ia me internar de jeito nenhum porque eu ia parir normal, ela sabia disso. Ela pediu que eu me acalmasse e disse que ninguém ia fazer nada sem a autorização dela. Pediu que eu me internasse, já que logo mais ela chegaria para ver como estava o andamento do trabalho de parto.
Eu ainda não entendia! Mas que trabalho de parto? Eu continuava não sentindo absolutamente nada. Como poderia estar em trabalho de parto? Mesmo com esse sinal do que estava por vir, não enxerguei, pois não queria ver. Preferi me entregar a ela, deixar que ela decidisse por mim, então me senti segura, me tranqüilizei um pouco. Me internei e fiquei aguardando sua chegada.
Primeira providência: tomaram minha garrafa de água. Segunda providência: troquei de roupa, me deitaram numa cama e puseram um cardiotoco (monitoramento cardíaco fetal, na forma de uma cinto, com eletrodos: esse aparelho mede a intensidade das contrações e os batimentos cardíacos do bebê). Eu tinha que ficar deitada, para que tudo fosse rigorosamente registrado no aparelho. Obedeci, afinal a Dra. M. pediu esse exame, e eu confiava nela, né?
Mais tarde chegou a enfermeira, aquela que eu havia contratado. Me senti mais aliviada porque pelo menos tinha uma pessoa que defendia o parto normal do meu lado. Para mim, ter ela por perto representava alguém que sabia tudo sobre parto natural, humanizado, e iria traduzir todos os procedimentos médicos a que eu fosse submetida. Mais que isso, eu confiava nela. Conversamos, ela tentou me deixar calma e ir me conformando. Lembro de suas palavras: “É isso mesmo, Tricia, não deu. Quando acontecem essas coisas na vida da gente, temos que nos conformar”. Eu perguntava a ela, “e se eu fosse em outro médico?” e ela “ qualquer médico de Fortaleza, te mandaria fazer uma cesárea. Não tem jeito”. Mas eu queria mesmo era ir embora, e até ali eu ainda acreditava que a minha Dra. M. fosse me mandar para casa.
Quarenta minutos depois, a enfermeira veio coletar o resultado do exame: as contrações eram insignificantes e os batimentos estavam perfeitos, 140BPM. Não entendia porque as dores não vinham, onde estavam as contrações furiosas, as famosas ondas? Continuava não sentindo nada. Deitada na cama, com medo de levantar e descer mais liquido... Hoje sei que, na verdade, eu estava em pródomos. Não tinha dilatado nada ainda, nem dor eu sentia. Aquelas contrações vinham, mas eu sentia como se fossem cólicas indolores.
Seis horas depois do rompimento da bolsa, minha medica finalmente chegou. Entrou com pressa, não estava de bom humor, muito chique, perfumada e bem vestida. Olhou o resultado do cardiotoco. Disse que o trabalho de parto ainda ia demorar muito. Verificou os batimentos. Thais estava ótima. Checou o liquido, e ali ela finalmente encontrou o que procurava. Mecônio amarelinho, como um catarro, claro, pastoso, coco de neném recém nascido. Mecônio! Ela olhou pra mim e disse “Mecônio! Você sabe o que é isso, né? Você sabe o que isso significa?? Não tem o menor sentido esperar.”
Eu já estava super frágil, cheia de dúvidas, fiquei me lembrando de tudo o que eu tinha aprendido durante a gravidez. Aquele não era o parto que eu esperava. Mas eu não conseguia “despertar”, acordar, agir. Eu não tinha atitude de questionar alguma coisa, de me levantar, de negar um procedimento. Fui na onda dos acontecimentos, me deixei levar, entreguei o poder de decisão sobre meu corpo, minha saúde e a da minha filha nas mãos da Dra. M. e da instituição. Mas o que eu poderia fazer nessa altura do campeonato???
Minha médica, acredito eu, se sentiu desafiada durante toda a gestação, pois teve seu conhecimento questionado por uma gestante, deve ter pensado: Isso é possível? Ela quer saber mais que eu. Não pode. Eu sou a médica, eu estou no controle....
Então finalmente ela encontrou um argumento que era imbatível. Eu não sabia se mecônio era ou não motivo real para cesárea. Será que era? Será, meu Deus? Eu não tinha a menor idéia se mecônio realmente significava sofrimento fetal.
Na verdade, até então, eu estava tão confiante em mim mesma que acreditei que podia fazer tudo sozinha (e qual o problema com isso? Não deveria ser assim?). Mas, aquela situação imprevista me deixou com medo. E medo durante o trabalho de parto pode estacionar tudo. O corpo sente medo e se contrai, trava, não consente. Basta observar a natureza, como uma fêmea que vai dar à luz procura o lugar mais seguro, uma toca, um buraco, se esconde e fica sozinha. Se a fêmea sente medo ou ameaça, é capaz de comer seu filhote. É a lei da natureza.
Naquele momento eu não fui uma fêmea, meus instintos foram esquecidos, eu não ouvi meu corpo, e o resultado foi minha passividade. O mecônio me deixou apavorada. Pensar na possibilidade de minha filha não estar bem, me deixava pior ainda. Continuei boiando na correnteza dos acontecimentos até que me segurei no único galho que flutuava acima daquilo tudo. Confiei na minha médica. Um instante depois Dra. M. me mandou para o centro cirúrgico.
Eu chorava muito, tremia toda. Nem lembrava da Thais. Só pensava com que cara eu ia me olhar no espelho depois de tanta “empoderação” indo pro ralo... Me deitei na maca. A barriga continuava lá linda, enorme, mágica. Fui.
Dizem que os medos mais profundos de cada mulher submergem durante o parto. Pois os meus medos vieram com toda força.
Meu marido foi comigo, todo de verde, igual os Ets que fizeram a cirurgia. Entrei na sala de cirurgia, me senti abduzida por um disco voador. Tudo muito frio, iluminado, muito aço, muita seringa, muita gente correndo de um lado para o outro. Aquele monte de Ets estavam prestes a me dissecar toda. Ainda pedi para que não amarrassem meus braços, pois queria pegar na minha filha, mas não deixaram, tinha que ter aquilo para “a minha própria segurança” (será mesmo?), rotina hospitalar, tinha que ser e pronto.
50 min depois do diagnóstico por mecônio, começa a cirurgia. Anestesia sentada de costas. “Não se mexa de jeito nenhum, viu?”. A Dra. M. me segurou pela frente. Naquele momento ela me passou muita segurança. Foi como uma mãe para mim. E eu me deixei levar por tudo aquilo, me entreguei. Fazer o que mais? Se não fosse assim, seria pior... Depois da anestesia eu me deitei, ela perguntou se minhas pernas estavam pesadas. Eu sei lá. Disse que sim. Mentira.
Começou a cirurgia, e eu sentido dor, no inicio nem tanta, mas a medida que os tecidos iam sendo cortados a sensibilidade aumentava e eu sentia mais e mais... Senti cada corte, cada movimento daquele bisturi. Só Deus sabe como eu suportei. Chorava direto, sem parar. Eu senti cada um dos sete cortes e doía muuuuuitoooo... comecei a me debater, balançava as pernas, ninguém me ouvia, até que chegou um momento que eu não agüentei mais e comecei a gritar, me espernear. A Dra. M. parou a cirurgia, perguntou à anestesista: “Dra. A. essa anestesia pegou mesmo??? Quando eu corto do lado esquerdo ela sente!!!”. A anestesista disse que sim. Vamos em frente, que pra trás não dá mais. E eu continuava lá, gritando, chorando me mexendo toda amarrada naquela maca. Aquilo foi uma eternidade para mim. Passaram-se anos, séculos e aqueles animais me abrindo a barriga.
De repente a anestesista pulou encima de mim, de joelhos com o bumbum no meu rosto, e começou a empurrar minha barriga. Manobra de Kristeller, das piores. Como se fosse a coisa mais normal o mundo, ela dizia: “Calma! Pense na sua filha que está nascendo...” Eu não conseguia raciocinar nada... pensei em como a Thais estava, devia estar apavorada, aterrorizada com todo o medo que eu sentia.
Tenho certeza que Leboyer nunca aceitaria tamanha atrocidade. Se eu sentia tudo aquilo, tanta dor, tanto terror, imaginem o que minha filha sentia? Um recém-nascido em seu paraíso perfeito, de repente leva um susto, alguém corta seu ninho, e puxa sua cabeça com violência e rapidez. Imaginem...
Depois que a Thais foi tirada, baixaram o pano verde. “Olhe a sua filha!” alguém falou. O Henrique disse que ela era linda... comecei a chorar mais ainda, trouxeram-na para mim, só a encostaram no meu rosto. Ela chorava muito, alto, forte. Devia estar desesperadamente aterrorizada, assim como eu. “Você está muito nervosa mãezinha, vou colocar aqui uma coisinha para você dormir, ta bom?”. Me doparam. Dormi pesado, sonhei e acordei já no corredor, a enfermeira levando a Thais num pacotinho ali do lado. Quanto tempo se passou? Tudo estava calmo agora. Entramos no elevador, e fomos para a enfermaria.
Assim que eu cheguei, pedi a Thais à enfermeira, e quando me entregaram ela toda limpa, já banhada, me senti mal por não ter estado com ela em seus primeiros minutos de vida. Porém, para a minha felicidade, e como uma vingança contra todos os que duvidaram de mim, ela MAMOU! Mamou superbem como se tivesse feito aquilo durante toda a gestação... ali, naquele momento, eu pensei “Fiz besteira, mas isso já não importa. O que importa é ela.”
Mais tarde chegou uma menina chamada Cinthia, estava em trabalho de parto. 2cm de dilatação, sentindo contrações a cada 15 min. Colocaram-na do meu lado, na enfermaria. O trabalho de parto dela estava maravilhoso! Ela dilatava praticamente 1cm/hora... e dizia mil palavrões, que não queria estar sentindo “aquilo” que era um absurdo, que tinha combinado com o medico de fazer cesárea. E eu observando. Pensava: como pode isso? Como uma garota tão jovem, com seu corpo perfeito funcionando bem, reclama assim da vida? Receber o privilegio de parir, e negar seus próprios instintos? Queria ela ter um parto como o meu? Se eu pudesse trocar de lugar com ela! Ali estava eu, pronta para receber suas contrações... mas não. Melhor calar.
Treze horas mais tarde, às 22hs, a enfermeira me mandou levantar para ir ao banheiro fazer xixi. Eu ainda não tinha me erguido desde a cirurgia, e não tinha levado cinta nem nada (afinal eu tinha convição que teria parto normal). Fui lá toda valente, quando eu me levantei e fiquei sentada ainda na cama.... senti meus órgãos caindo para a frente, e o intestido fazendo peso encima da cicatriz como se todos os orgãos fossem sair por aquele rasgo na minha barriga, ardendo em chamaa... Soltei um “Aaaaaaaiiiiiiiiiiiii, tá doendo!!! Tá doendo!!!! Mãe!! Tá doendo!!!”. E a enfermeira respondeu: “Besteira, isso é normal, vem logo!”. Deitei de novo de tanta dor, depois levantei e fui, me acostumei com dor e tudo, no banheiro. Fiz xixi sozinha, sem ajuda daquela nazista, voltei e me deitei. Daí a outra enfermeira chegou no quarto com o meu prontuário: “Ah! Fulana, tô vendo aqui que a Dra. M. passou uma faixa... era pra gente ter colocado, ó.” (Ai que ódio. Depois que eu senti a barriga rasgando, ela vem me dizer isso? É muita cara de pau!)
Minha recuperação foi muito dolorosa, sentia dores insuportáveis da nuca até a ponta do pé, dores horríveis, intermináveis. Isso durou 20 dias. Não conseguia amamentar sentada na cadeira de balanço, somente deitada na cama. Além da cefaléia fortíssima, a cicatriz ardia muito, muito mesmo... demorou uma semana para parar de doer. Tentei andar erguida para cicatrização não ficar feia, mas tinha hora que não dava. E o pior é que eu tinha que me levantar muitas e muitas vezes, para amamentar a Thais, trocar fraldas, dar banho... meu Deus, não sei como eu consegui!
O que essa experiência significou para mim? Um amadurecimento sem tamanho. Hoje percebo o quanto fui imatura e passiva. Eu que eu não escutei meu próprio corpo.
Durante as primeiras semanas, fiz de tudo para me colocar para cima, pois tive um baita babyblues. Pensei na Thais, no meu leite, em como a tristeza podia prejudicar a amamentação, por isso tentei meio que me conformar com essa cesárea.
O nascimento da minha filha me marcou de um jeito tão profundo, e ao mesmo tempo preencheu minha vida de alegria, e felicidade. Mas a experiência de ver essa criança nascer, me deixou um vazio que eu não sei explicar... Faltou tanta coisa...a dor do trabalho de parto, as contrações, a perda de controle, o êxtase de se abrir, se partir no meio... faltou ficar acordada olhando pro rostinho dela e reconhecendo cada pedacinho... sentir o cheiro dela, beijar, tocar, amamentar naquela hora, cantar pra ela, olhar no olho.
Eu estava tão apavorada, gritando de dor devido à falha da anestesia que não tive condições de reconhecer minha filha.
A lembrança que tenho é de um bebê aparecendo por trás do pano verde, e passando ao meu lado. De repente alguém disse: “Está aí tua filha. Ela é linda!”. Mas no meio do turbilhão de dor e apesar da alegria, o que eu pensei naquele momento foi: “Quem é esse bebê? De onde a tiraram? Não é meu, não. Eu nem vi sair de mim... não pode ter sido meu... não pode.”
No entanto, apesar desse sentimento confuso, a força da maternidade venceu porque a amamentação da minha filha foi ótima, e foi graças a isso que desenvolvi meu vínculo com ela, devagarzinho, aos poucos, a cada mamada mais e sempre mais.
*Tricia Cavalcante tem 26 anos, mora em Fortaleza (CE), é publicitária, representa a ONG Amigas do Parto em sua cidade e cuida da assessoria de imprensa da organização. Seu e-mail de contato é: titacp@gmail.com�
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