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Um parto natural após cesárea conseguido com determinação PDF Imprimir E-mail
Por Maya - Brasília (DF)*   
11 de Julho de 2006
Meu nome é Maya Terra Figueiredo tenho 25 anos, moro em Brasília, sou estudante de Filosofia na Universidade Pública e tenho dois lindos filhos, um chamado Hailê, de 3 anos e meio, e outro chamado Kayo, de 8 meses.

Vou relatar minha experiência de parto, pois ela é um indicador do tipo de dificuldades que nós mulheres brasileiras enfrentamos para termos nosso direito a um parto normal como ele deve ser, feliz e sem traumas.

Quando fiquei grávida do meu primeiro filho procurei um médico que fosse adepto do parto humanizado, pois sabia que a maioria dos médicos da rede particular do Brasil preferem fazer cesariana, e, como tenho pavor de me imaginar em uma intervenção cirúrgica, e tenho uma irmã que trabalha com o parto natural, fiz todo meu pré natal imaginando um tranqüilo parto de cócoras e normal.

Meu bebê, porém, escolheu nascer sentado e, diante da recusa do médico em realizar um parto normal nestas condições, fiz uma cesariana. Apesar de tudo ter corrido bem, não gostei da experiência, principalmente devido à dor causada pela cicatriz após o parto.
Fiquei um mês sem poder andar ereta e sentindo dor, pois optei por mim e pelo bebê por não tomar muitos remédios analgésicos.

Grávida pela segunda vez, procurei o mesmo médico para realizar meu pré -natal e tentar novamente um parto normal. Como ele não atendia mais pelo meu convênio, pedi que ele me indicasse um colega que ele segundo ele não encontraria problemas em realizar um parto normal após cesárea. Ele me respondeu que seria muito difícil, já que a maioria dos médicos me indicaria outra cesariana devido ao primeiro parto. Mesmo assim, ele me deu os nomes de dois colegas.

Procurei um dos indicados e, logo na primeira consulta, falei sobre meu desejo. Ele me afirmou que se o neném estivesse na posição correta e não houvesse nenhuma complicação ele não via problema na realização do parto normal. E ainda comentou que eu “era uma exceção pois a maioria pedia para fazer cesariana”.

Fiz meu pré-natal normalmente. E, como havia feito na vez anterior, fui pesquisar um pouco sobre o parto na biblioteca da universidade. Na primeira gravidez havia lido um livro fantástico de um medico argentino, “Feliz Parto Natural”, onde, entre outras coisas, ele diz que o medo do parto vem da falta de conhecimento da mulher dos processos pelos quais seu corpo está passando. Passava então a explicar o parto de maneira técnica, porém simples.

Nesta segunda pesquisa peguei livros de estudos médicos sobre o parto normal. Descobri que a maioria dos procedimentos - como aplicação de ocitocina (hormônio sintético para induzir ou acelerar as contrações), episiotomia (corte do períneo), rompimento artificial da bolsa, tricotomia (raspagem dos pelos pubianos), enema (lavagem intestinal) e outros - não apresentam comprovação de sua eficácia médica. Os livros colocavam que embora a aplicação rotineira desses desses procedimentos não ser cientificamente comprovada, quando utilizados devem ser realizados da maneira correta para não interferir na evolução das contrações do trabalho de parto, pois podem não só serem desnecessários como também prejudicar o parto.

Quando fui à última consulta mensal antes do parto, a conversa com o médico foi mais ou menos assim (pois, como diz o poeta Wally Salomão "a memória é uma ilha de edição":

Ele: “Seu parto está previsto para o dia 19, então vamos marcar para o dia 17.”
Eu: “Marcar o quê? A próxima consulta?”
Ele: “Não, a cesariana.”
Eu: “Mas eu quero tentar o parto normal, doutor!”
Ele: “Aaaahhhh! É, tinha me esquecido! Então, vamos tentar...”

Foi então que percebi que ele não estava nem aí para meu sincero desejo de ter um parto normal e que ele não faria nenhuma questão de que isso acontecesse. Procurei meu antigo médico que me examinou e me deu uma data provável, dizendo que que poderia me examinar novamente no dia do parto.

No dia 20 de novembro de 2005 entrei em trabalho de parto por volta das 9h da manhã. Continuei fazendo minhas coisas e ajudando meu marido em casa, varrendo o jardim, etc... . Quando sentia uma contração me agachava apoiada no sofá. Só liguei para o médico do pré-natal por volta das 5h30 da tarde, quando as contrações já vinham de 20 em 20 min. Após tentar me convencer de ir para um hospital perto de sua casa e longe da minha, ele disse a meu marido que fôssemos para o hospital que havíamos escolhido, mas que não demorássemos pois ele já estava indo. Neste momento soube que ele não iria “fazer” meu parto normal. Deixei meu filho maior com minha mãe e fomos eu e meu marido.

Ao ser examinada, às 6h30, ele me disse que eu estava com 3 cm de dilatação e que então poderíamos administrar o "soro" (ou seja, ocitocina via soro) e talvez romper a bolsa. Respondi que queria esperar mais um pouco . Ele se pois a me explicar que ele me aplicaria ocitocina para acelerar minhas contrações (o que eu já havia descoberto não ter fundamento cientifica) e que ele concordava com o fato de eu eu não tomar remédios para diminuir a dor, e acrescentou que romper a bolsa também poderia ajudar a acelerar o processo.

Eu lhe repeti que gostaria de esperar. Ele respondeu que não poderia realizar um parto desta maneira, porque para ele seria desumano me fazer passar por tudo aquilo. Eu afirmei que não me importava e que poderia aguardar. Ele retrucou que ele não faria um parto assim - um parto onde o médico só deve esperar o neném sair e segurar sua cabeça; isso, para ele, não se faz. E acrescentou: “O que estou te oferecendo é um parto humanizado, onde eu vou preservar você e o bebê do sofrimento”. Eu reafirmei que preferia esperar. Ele então finalizou dizendo que não iria ficar, poderia demorar muito, que neste caso eu poderia ser atendida pelo plantonista, o qual, ele tinha certeza, me faria as mesmas recomendação. Concordei e fui esperar pelo plantonista.

Entre uma contração e outra a recepcionista, que nesse meio tempo estava fazendo minha ficha, vem me comunicar que meu plano estava vencido há duas semanas. Ligamos para a central do convênio em São Paulo e descobrimos que não havia jeito deles me atenderem pelo seguro. Foi a mão do destino. Chorei. Não de medo, porque sabia que tudo daria certo. Chorei mais pela situação que acontecia em um momento tão importante e confuso. Liguei para meu antigo médico e pedi que ele me examinasse. Decidi ter meu filho no hospital de rede pública como a maioria das mulheres brasileiras.

Ao me examinar, às 20h30, ele me disse que eu estava com 4 cm de dilatação mas que tudo parecia correr bem, que realmente a bolsa não deveria ser rompida e que ele não me aconselhava a tomar ocitocina porque poderia ter problemas com a cicatriz uterina da cesárea. Fiquei com muita raiva do outro médico, que iria me colocar em situação de risco. Segundo ele, pela evolução que apresentava, o neném iria nascer no inicio da madrugada. Aconselhou-me a ir para o Hospital Materno Infantil de Brasília, que é a melhor maternidade pública do Distrito Federal (Brasília), mas disse que lá eu não teria muito controle sobre a questão da administração do "soro".

Liguei para minha mãe e pedi que ela viesse para me acompanhar no parto, já que ela é medica e poderia entrar no hospital comigo sem problemas. Embora uma lei tenha sido aprovada recentemente garantindo o direito a acompanhante no parto eu não tinha muita certeza se ela seria aplicada ou não.

Esperei minha mãe, andando por estacionamentos vazios e pelo hospital, sempre me agachando quando vinham as contrações. Por volta das 22h00 dei entrada no HMIB. Apesar da simplicidade e aparente desprezo das atendentes, fui atendida rapidamente. As contrações já estavam com um espaçamento pequeno e não consegui conversar muito com o médico que me examinava. Já estava com 6 cm de dilatação. O médico disse que esperaria até 1h00 da manhã para ver se o bebê nascia de parto normal e que depois iria reavaliar, e que não me daria o "soro" devido à cicatriz da primeira cesárea, e que iria monitorar os batimentos cardíacos do bebê.

Fui então para um quarto onde havia duas camas; outra menina da minha idade estava com o trabalho de parto já avançado como o meu. Fiquei com minha mãe, deitada, tentando relaxar todos os meus músculos. Quando vinham as contrações era difícil encontrar uma boa posição. Pedi para tirar a sonda e poder andar, mas disseram que eles TINHAM que monitorar o neném. Então, pedi para ir no banheiro, enrolei bastante para poder me agachar e andar. Descobri que uma das posições mais confortáveis durante a contração era estar sentada no vaso porque ele é baixo e bem estável.

Tudo evoluiu bem e, apesar das broncas do médico de que eu estava mexendo muito e tirando a sonda, tudo ocorreu como a natureza nos preparou para realizar. Estava como em um estado alterado de consciência e quando o médico disse: “Você tem que ficar parada!” soltei uma gargalhada! Antes dele sair da sala senti a primeira contração de expulsão, percebemos que tinha algo querendo realmente sair. Dei um grito.

”Não pode gritar, você estava indo bem, vou te examinar mas não grite.” O médico disse.
Veio a segunda e soltei outro grito. Ele me examinou e chamou as enfermeiras para preparar a cama (que era ajustável) e “realizar” o parto.

Às 00h30 da madrugada do dia 21 de novembro nasceu o Kayo de um feliz parto natural, e todos os medos, angustias e sentimentos confusos foram superados. De imediato toda a dor passou. A sensação de dever comprido e o amor pelo neném me invadiu e ultrapassou a experiência das precariedades do hospital público brasileiro. Aquela foi a prova de respeito pelo meu direito a parir naturalmente e pelo direito de meu filho de nascer tranquilamente e ambos vivermos da forma que escolhemos.

Escrever este relato me emocionou muito. Para mim foi de enorme importância ter passado por essa experiência que nos permite entrar em contato com nosso maravilhoso dom de ser mulher e de poder gerar e continuar a vida. Sinto também que devo isso a todas aquelas que como eu querem um bom parto para si e para seu filhos e que, a despeito de serem constantemente levadas por seus médicos a acreditar que não serão capazes de realizar ou suportar o parto, consegue realizar seu desejo e parir como vem sendo feito a gerações e gerações, desde a aparição de nossa espécie sobre a Terra.

Sejam fortes, não desistam tão rápido e feliz parto normal!

*Maya Terra Figueiredo tem 25 anos, mora em Brasília (DF), é Educadora Ambiental e estudante de Filosofia na Unb. Seu email de contato é: maya_terra@hotmail.com

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