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Uma cesárea seguida de dois partos naturais Quando engravidei do meu primeiro filho eu era estudante do primeiro ano de medicina, nesta época, é claro, além de ser muito jovem nem imaginava o que era obstetrícia.
Ficava sonhando com um parto normal talvez em casa, talvez numa cachoeira, mas estava muito pouco preparada, li alguns livros a respeito de parto natural e fiquei fascinada, mas foi só.Eu estava muito passiva no processo, eu esperava que todas as orientações devessem partir do meu médico, que apesar de ser um excelente profissional, não se manifestava e eu não conseguia e nem sabia muito bem o que perguntar a ele. Por fim, com 40 semanas e 3 dias de gestação eu achei que tivesse rompido a bolsa e avisei meu médico que pediu que fôssemos ao hospital. Lá chegando por volta de meia noite, fui internada e me fizeram a tricotomia, eu estava morrendo de medo que aquela enfermeira me machucasse (minha região genital) com aquela lâmina de barbear. Eu disse a ela que sabia que ela tinha muita prática, mas mesmo assim eu estava com muito medo. Depois me fizeram uma lavagem intestinal, que situação! Alguém que você nunca viu antes injetando um líquido via retal e para piorar, depois tive que ir a um banheiro com a enfermeira do lado de fora, dava para escutar ela conversando com outras pessoas, evidentemente todos que estavam fora também poderiam escutar os meus ruídos, quanta vergonha eu senti, acho que não consegui fazer quase nada, segurei o que podia.
Depois fui encaminhada à sala de pré-parto, me colocaram um soro com ocitocina e meu médico me deixou de jejum. Naquela época essas coisas eram a rotina. Fiquei deitada a noite toda, embora meu médico tentasse me encorajar a caminhar não me sentia nenhum um pouco à vontade.Estava usando uma camisola do hospital que era aberta atrás.Não era possível me expor tanto àquelas pessoas desconhecidas.Fiquei deitada mesmo.
As contrações que eram espontâneas antes de chegar ao hospital, desapareceram e nem a ocitocina conseguia estimulá-las novamente.Na verdade eu estava apavorada e impedi que meu trabalho de parto acontecesse.No dia seguinte ali pelas 17 horas, meu médico me falou que estava tudo bem comigo e com o bebê, mas que ele não nasceria de parto normal, mas me falou que se eu quisesse poderia esperar mais. Ouvindo aquilo eu pensei, se ele disse que não nascerá de parto normal por que vou esperar mais? Comecei a chorar, absolutamente decepcionada comigo mesma à caminho da sala de cesárea, eu tinha impressão que estava indo para o matadouro.
Enfim me anestesiaram e quando deitei me pediram para apoiar os braços naquelas braçadeiras então amarraram meus braços, além disso para a anestesia pegar direito o anestesista inclinou a mesa de modo que minha cabeça ficou mais baixa que os meus pés. Puxa,eu estava crucificada de cabeça para baixo.
Quando nasceu meu filho eu queria vê-lo,consegui levantar meu tórax para tentar enxergá-lo, mas foi em vão minha tentativa, pois me mandaram imediatamente deitar novamente, depois que clampearam o cordão, Lucas foi entregue ao pediatra e este me mostrou rapidamente o bumbum do Lucas, aí o levaram para todos aqueles procedimentos(aspiração, colírio, banho, exames...) depois o trouxeram para que eu desse um beijinho e o levaram para o berçário.Enquanto o médico terminava de me costurar ele me falou algo que foi muito importante, ele me disse que mesmo tendo tido uma cesárea eu poderia tentar um parto normal na próxima gestação, aquilo me deu um certo conforto.
Fui levada ao quarto para tentar dormir, me sentia afundada naquela cama, aquela foi a noite mais longa de toda a minha vida, tudo incomodava, tudo doía, não podia colocar travesseiro, não conseguia me virar de lado sozinha.
Quando amanheceu, eu não via a hora de ver meu bebe, como uma criança que espera ansiosamente pelo seu presente de natal (será que o papai Noel vai trazer o que eu pedi a ele?). Quando o trouxeram a enfermeira já me falou para tirar o peito para fora e pegou no meu mamilo de uma forma forte e grosseira, doeu, é claro. Não tinha nem dado tempo de eu ver meu pequeno e ela já queria que eu o amamentasse, era tudo muito mecânico.
Quando fui para casa, Lucas só dormia, não queria mamar, minhas mamas estavam imensas e começavam a empedrar, meu marido tentava me ajudar, fazia massagens para o leite sair, fez acupuntura (ele era estudante do quinto ano de medicina), mas o Lucas não se interessava.
No quarto dia de vida, já em casa minha disse que achava que eu não conseguiria amamentá-lo, achava que eu não teria leite. Aquilo foi demais para mim, naquele momento comecei a despertar, eu precisava pegar minha vida com minhas próprias mãos.Coloquei um limite muito claro para minha mãe, talvez um pouco exagerado, mas a partir dali magicamente o Lucas pegou meu peito e eu sempre brinco que ele não soltou mais.Eu fazia tudo amamentando.Pelo menos eu consegui amamentar exclusivamente até os seis meses e depois continuei amamentando até descobrir que estava grávida do segundo filho. O Lucas tinha 1 ano e dois meses quando descobri.
Na segunda gestação demorei em começar o pré-natal, pois estava com bastante medo, aquela seria minha última chance de tentar um parto normal, tinha mudado de cidade para acompanhar meu marido que iniciara a residência médica em Campinas.
Quando encontramos um médico que fazia parto em casa fui me consultar, chorei muito nesta consulta enquanto falava para ele o quanto fiquei triste por ter uma cesariana. A gestação progredia bem, mas eu estava sempre bastante ansiosa com o parto.
Eu queria muito ter o bebe em casa mas o médico me disse que minha cesárea era muito recente por isso preferiria fazer o parto no hospital,mas me disse que poderíamos ficar bastante tempo em minha casa durante o trabalho de parto. Não gostei muito, mas tive que aceitar.
O tempo foi passando e eu me sentindo cada vez mais responsável pelo meu parto,fazia yoga, lia muito, me informava com todo mundo que podia,mas o principal é que consegui perceber algumas dificuldades que tinha com minha mãe e pude conversar com ela sobre isso.
Chegou 40 semanas e nenhum sinal, 41 semanas e nada, então meu médico disse que se até a próxima segunda feira ele não nascesse ele induziria meu parto. Fui para casa, chorando e chorando, eu precisava conseguir. Nesta noite eu e meu marido tomamos um bom banho, tentei me concentrar, respirar e acalmar. Deitei e meu marido fez uma acupuntura para me equilibrar, nós estávamos muito concentrados.
Após ele tirar a última agulha eu senti a primeira contração, mas não falei nada nem para o Zé, meu marido. Deveria ser umas 23:30 horas. Fiquei controlando a cada quanto tempo apareciam as contrações através do radio relógio, com a luz apagada e em silêncio, eu não podia arriscar nada desta vez, ninguém poderia me atrapalhar, por isso mantive o segredo.
Ali pelas 3-4 horas o Zé acordou, pois eu levantei para ir ao banheiro. Ele me perguntou se estava tudo bem, aí eu falei que estava em trabalho de parto. Ligamos a luz do quarto e eu comecei a ler relatos de parto e meu marido também lia alguma coisa.Naquela época não tínhamos telefone em casa.Mais ou menos as 5:30 da manhã pedi para o Zé que fosse telefonar para o médico e também para buscar minha sogra para ficar com o Lucas.O Zé achou melhor esperar amanhecer para fazer isso e eu concordei.
Nessa altura as contrações já eram bastante fortes e eu caminhava pela casa,às vezes ia ao banheiro,às vezes me ajoelhava debruçada na cama ou no sofá.Quando amanheceu meu marido foi fazer o combinado e voltou com a minha sogra que ao chegar me perguntou se já estava tudo pronto para ir ao hospital.Disse a ela que faltavam algumas coisas então fomos para o meu quarto e quando me sentei senti que a bolsa se rompeu e percebi nitidamente a cabecinha do bebê se encaixando na minha pelve.
Aí falei para ela que o bebê nasceria logo e que não queira ir para o hospital,entre outras coisas, temia que ele nascesse no elevador.Porém, me convenceram a ir ao hospital.E quando cheguei lá fiz uma única força e nasceu o Daniel, cheio de vida .
Fiquei em estado de êxtase durante muito tempo foi a maior emoção da minha vida.Essa experiência me trouxe maturidade,uma ampliação da minha consciência.Entrei em contato com uma força interna que não imaginava possuir.Realmente foi maravilhoso, foi uma vivência que me trouxe um sentimento que não consigo explicar com simples palavras.Logo após o nascimento do Daniel já estava pensando se conseguiria ter um parto normal no próximo bebê.
Já na terceira gestação eu estava bastante segura e escolhi um residente iniciante para acompanhar meu parto. Escolhi propositalmente um iniciante, pois não sendo um profissional consagrado ele atenderia aos meus pedidos de não ter intervenções.Novamente tentei um parto em casa, mas a única condição que este obstetra me colocou é que deveríamos ter um pediatra para receber o bebê.
Com 39 semanas e 6 dias a partir da meia noite comecei a sentir contrações e repeti a mesma coisa que havia feito no trabalho de parto do Daniel, fiquei contando a cada quanto tempo vinham as contrações, elas pareciam que estavam pegando um ritmo, mas as 6 horas da manhã pararam, aí pude cochilar um pouco até as 8 horas.
Passei o dia seguinte tendo contrações bem espaçadas, caminhei bastante pelas ruas com meus dois filhinhos, o Lucas tinha 4 anos e Daniel tinha 2 anos, tomei muita água de coco, e fui me concentrando, pois, já imaginava que a qualquer momento as contrações fortes começariam. À noite, Daniel já estava sentindo que algo diferente estava para acontecer, ele não queria dormir sozinho, tive que deitar um tempinho na cama dele, já tendo contrações um pouco mais fortes.
As crianças dormiram e as contrações foram aumentando lentamente, desta vez o trabalho de parto era muito mais suave, mais ou menos as 4:30h meu médico,que estava em casa, me examinou e disse que eu estava com 7 centímetros de dilatação e achou melhor que fossemos ao hospital, pois neste dia nosso amigo pediatra estava de plantão e não poderia vir em casa para receber meu bebê.
Chegando no hospital a bolsa das águas se rompeu e imediatamente as contrações ficaram muito fortes, quando percebi que ela estava encaixada avisei o médico que ela nasceria logo e ele me pediu que fizesse força. Depois de alguns minutos Sofia nasceu naturalmente, sem nenhuma intervenção.Foi uma grande emoção saber que era uma menina. Pude amamentá-la assim que nasceu e logo fui para casa.
Apesar de Sofia ter 14 anos, Daniel 16 anos e Lucas 18 anos, as imagens e sensações de seus nascimentos estão absolutamente marcadas dentro de mim,escrevendo este depoimento as lágrimas me vem aos olhos em muitos momentos.
Gostaria de agradecer a todos os profissionais que me acompanharam de forma diferente. O primeiro por ter mantido acesa a chama da esperança de um possível parto normal após uma cesárea . O segundo por acreditar e me respeitar. E ao terceiro agradeço por ter respeitado todos os meus desejos.
A meu marido agradeço por nunca ter duvidado de mim e por ter me encorajado em todos os momentos, principalmente nos mais difíceis.
Aos meus filhos agradeço por terem me possibilitado viver a maior e melhor experiência de toda a minha vida.
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