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Cheirinho de Céu PDF Imprimir E-mail
Por Maria Luiza - São Paulo (SP)*   
14 de Março de 2006
Aprendi esta expressão – maravilhosa por sinal – com a “minha” (como se alguma coisa fosse minha mesmo...) médica que acompanhou o parto da minha filha Nathalia, nascida há apenas 3 semanas. Realmente há um pedaço de céu ou do paraíso perdido nestes serzinhos tão pequenos e tão grandes dentro de nossas vidas. Basta fechar os olhos e respirar fundo, bem pertinho deles... e de repente somos remetidos ao paraíso...  Tudo é então esquecido: as dores, o peso, os desconfortos, as restrições... tudo é esquecido quando a gente sente este “cheirinho de céu”... que vem de um bebezinho que nasceu há pouco tempo, que veio de dentro da gente, que cresceu dentro da gente e que vai nos acompanhar, ou melhor, que vamos acompanhar por um bom tempo...

Até agora ainda reflito sobre o meu último parto (de três). Tive o meu primeiro parto normal, que aconteceu fora do Brasil, onde as cesarianas são menos indicadas. O parto foi induzido com ocitocina, em 4 horas meu filho Sven nasceu. Na época, não fui anestesiada e fui pega de surpresa com as dores da dilatação. Mesmo assim, achei a recuperação simples e quase 10 anos depois, na minha segunda gravidez, do meu filho Lyon (já no Brasil), quis ter outro parto normal. Meu médico na época concordou, mas na hora do parto indicou uma cesárea, mesmo com a bolsa rompida e 7 cm. de dilatação. Até hoje acho que fui roubada de um parto normal. Na época eu tinha 37 anos e o médico já considerava minha gravidez de um certo risco. Fiquei muito frustrada e tive uma recuperação difícil, com muita dor no abdômen.

Seis anos depois, aos 43 anos, engravidei novamente e apesar do susto inicial, iniciei meu pré-natal com um médico que não conhecia. Ele logo de saída me disse que eu muito provavelmente teria outra cesárea. Tinha todos os motivos: mais de 40 anos, cesárea prévia, e, além disso, estava ganhando muito peso na gestação. Aceitei o fato inicialmente, mas em algum momento comecei a pensar que talvez poderia ser diferente. Entrei em vários sites sobre o parto humanizado, parto natural, etc. Em algum momento recebi a indicação através da ONG Amigas do Parto, daquela que viria ser a minha obstetra. A pessoa da ONG com quem falei na época pelo telefone, me disse que eu me daria muito bem com ela.

Marquei a primeira consulta e realmente me vi de repente compreendida em tudo e também muito bem acolhida na minha proposta de ter um parto normal. Ficava questionando a mim mesma e a ela sobre o porquê é tão difícil ter um filho da forma mais humana e natural...

Bem, as semanas foram passando e eu já estava literalmente explodindo, minha barriga estava enorme e eu tinha muitas dores lombares e nos quadris, já não conseguia dormir ou sentar direito, minha ansiedade aumentava minuto a minuto. Quando estava na 38ª semana achava que teria sinais, pois aparentemente o bebê seria bem grande, mas nada acontecia até então.

Quase na 40ª semana eu estava bastante desconfortável, não tinha posição para dormir e não conseguia me movimentar devido a uma intensa dor de nervo ciático. Eu e a minha obstetra decidimos tentar estimular o início do trabalho de parto. Tivemos uma consulta mais prolongada, com direito a acupuntura, massagens e um toque para tentar estimular a dilatação. Esta consulta aconteceu em nossa casa, o clima era ótimo e após a estimulação cheguei até a sentir umas cólicas. Por fim, nada aconteceu durante a noite. Na manhã seguinte decidimos então induzir o parto com ocitocina. Nos encontramos no hospital às 14h. Eu estava muito ansiosa e com medo. Um medo um tanto indefinido, medo da dor, medo do futuro, medo do amor, não sei ao certo.

Passei a tarde do sábado pendurada no soro, aliás, muito livre, pois a minha obstetra improvisou um porta-soro com um cabo de vassoura que nós até documentamos com uma foto... Comecei a ter contrações, totalmente suportáveis, ficava no chuveiro, andava, sentava, comia, conversava. Só não conseguia deitar. A obstetra estava ao nosso lado o tempo todo. Andava bastante no corredor do hospital, mas por fim, no fim do dia, as contrações diminuíram e a dilatação era de apenas 2 cm. Fiquei muito frustrada, achei que não iria conseguir. Ela sugeriu então que a gente tentasse dormir e que, na manhã seguinte, depois do descanso retomaríamos o trabalho.

Domingo, 5 de Fevereiro de 2006, dia de muito calor na cidade de São Paulo. A equipe do hospital segue com sua rotina. A cada hora passa uma enfermeira para me ver e eu aguardo ansiosamente minha médica. As 7h30 a obstetra chega, eu dou uma desabafada com ela, estava muito desestimulada, cheguei quase a pedir uma cesárea, mas ela, junto com Pedro, me encorajam a continuar. Resolvi continuar.

Andando no corredor às 9h em ponto a bolsa se rompe. Alegria... para todos, o trabalho de parto enfim iria começar. Fui para o chuveiro, para relaxar. As contrações foram ficando fortes e mais fortes... A obstetra soube como ninguém me deixar livre dos procedimentos hospitalares, éramos só nos quatro, eu, ela e Pedro e Nathalia claro, dentro de mim.

As dores foram ficando mais fortes, e eu me achava nada valente, chorei, gemi... aos poucos fui me centrando, já não via mais ninguém, tive momentos de incerteza, para que tudo isso? me perguntei, cheguei a verbalizar isso, creio eu. A obstetra estava alí, disso eu me lembro, me encorajando. Por fim, quando já estava quase totalmente dilatada (isso eu soube depois), quis porque quis uma anestesia. A obstetra chamou a anestesista e se ofereceu para que eu a abraçasse e respirasse junto durante a aplicação da anestesia, pois as contrações eram fortes demais. A dose da anestesia foi bem pequena e eu podia continuar caminhando. Logo em seguida consegui relaxar e comecei a sentir uma pressão no colo. A obstetra me deu um sorriso e disse que era a Nathalia a caminho... quando ouvi isso chorei de emoção, mal podia acreditar que já estava ali. Quando penso neste momento agora escrevendo, me vêm lágrimas nos olhos! Foi muito gratificante este momento.

A partir desse momento fiquei muito confiante. Sabia que a Nathalia estava para nascer e de repente me senti muito forte. Depois de algumas contrações senti o corpinho da minha filha descendo, saindo, uma sensação única e muito forte. Minha alegria foi aumentando de uma maneira incrível. A obstetra esteve presente com muita firmeza e alegria. Finalmente, quando ela nasceu me senti totalmente plena. A Nathalia foi colocada no meu peito, o Pedro cortou o cordão umbilical. Minha felicidade era muito grande, por ter tentado e conseguido um parto normal!

Durante muitos dias ficamos, eu e o Pedro, revivendo aqueles momentos, como em um filme. Nossa gratidão à obstetra é enorme. Além disso, a forma humana como ela lidou com os nossos sentimentos e com a importância do nascimento da Nathalia nos impressionou e acalentou muito. Apesar de todos os senões, conseguimos um parto normal e lindo.

* Maria Luiza Ferraz, tem 43 anos, é tradutora e mora em São Paulo capital. O email dela é: luiferraz@yahoo.com.br
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