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Entre o simulacro e o símbolo PDF Imprimir E-mail
Por Adriana Tanese Nogueira   
09 de Novembro de 2004
...alguns fragmentos do real
ainda estão flutuando e perambulando...
Jean Baudrillard “Meu nome é Carolina, estou com 30 semanas de gestação e ainda não encontrei um médico em quem eu confie para fazer meu parto. Há três anos fui ‘vítima’ de uma desne-cesárea, o que arrancou de mim o sonho de sentir um filho nascer (sonho que me acompanhava desde criança) e junto o de amamentar (amamentei menos de uma semana), pois entrei em depressão profunda ao perceber o que tinham feito comigo.
Tive uma gravidez sem nenhum problema físico, tudo normal, meu filho estava encaixado; tudo PERFEITO. Mesmo assim, tiraram-no de mim, com 37 semanas, sem que eu tivesse qualquer sinal de trabalho de parto. Não só parece, como é um absurdo e sei que não sou a única que caiu nas mãos de um médico como esse. Por isso estou pedindo ajuda. Não tenho com quem contar e não sei como procurar um médico, estou nesta corrida contra o tempo sozinha. Faltam apenas 10 semanas e por isso preciso de indicações. Preciso de um médico que não só acredite em um parto natural, humanizado, como um médico que acredite em um parto natural depois da cesárea. Um médico que me dê a oportunidade, na minha última chance, de ter meu tão sonhado momento, que lute comigo pela forma correta de fazer nascer e que eu sei que é meu direito. Um médico realmente humano que não enxergue em mim cifras de reais e economia de tempo, mas sim, mais uma mãe a quem ele vai ajudar a realizar o milagre da vida.” (São Paulo, 2002)

A depressão é hoje um mal muito difuso, basta olhar para o amplo contingente farmacêutico devotado ao seu “combate”. Este notável investimento denuncia, no entanto, sua impotência: a depressão** é o sintoma do nosso tempo e continua aumentando o número de suas vítimas. Somente uma cultura míope e materialista como a nossa pode não enxergar o sentido humano-existencial por trás da sintomatologia física.

Tecnicamente, pelo ponto de vista junguiano, a depressão é uma queda energética que corresponde à inversão de rota da libido (energia vital) que dirige seu movimento para dentro, para o interior. Segundo o Dicionário Aurélio, a depressão é: 1) Ato de deprimir(-se). 2) Abaixamento de nível resultado de pressão ou de peso. 3) Baixa de terreno. 4) Diminuição, redução. 5) Anat. Achatamento ou cavidade superficial. 6) Fig. Abatimento moral ou físico; letargia. (1988, 202)

Na depressão há uma queda: de energia, de interesse, de disponibilidade. Acontece como que uma condensação, que gera o sentimento de peso. Há uma compressão e uma diminuição que se opõe à expansão e vitalidade da condição em que a libido está direcionada para o externo. A pessoa deprimida está voltada para dentro de si, entretanto, sem um ponto de referência interno. Simplesmente, vira as costas para o mundo, para sua vida cotidiana. É como quando o fluir da água termina num buraco. Fica lá, parada, estagnada. O investimento libídico, antes usado para a realização das tarefas e projetos no mundo, sofre uma queda, aparentemente irreversível. Não há estímulo externo que possa fazer o sujeito sair da cavidade na qual se encontra. As coisas não suscitam mais interesse, as atividades costumeiras e os projetos não excitam mais, não significam mais nada. Todas as informações e estímulos do mundo não compensam a ausência de sentido.

Ter finalidades faz parte do ser humano, que só se levanta e anda se tiver para onde ir. Obrigações diárias sem valor subjetivo são vazias e esvaziam quem insiste nelas. O fluir da vida poderá retomar seu curso somente quando é descoberto um novo valor/objetivo: Jonas re-emerge da baleia somente quando encontra seu caminho, quando tem o que fazer, quer fazê-lo e, portanto, pode ir ao encontro de seu destino. Assim a depressão, se cumprir sua função, termina naturalmente, transformando-se em seu reverso: o ímpeto e o entusiasmo pela vida.

Esta é a compreensão do sintoma depressivo que parece válida aos meus olhos. Deste ponto de vista, como entender a depressão que acometeu Carolina por ter sofrido uma cesárea desnecessária e sem seu consentimento? A visão reducionista da subjetividade humana e particularmente daquela das mulheres, interpretaria levianamente a reação de Carolina como um capricho sem sentido, porque afinal ela está bem e seu filho também, ou seja: estão ambos são e salvos (no plano físico). Porque se lamuriar? Basta ser mais esperta da próxima vez. E se também assim não conseguir, paciência!

Um olhar mais lapidado vê com nitidez a dor profunda que transcende a compreensão racional e corriqueira das coisas. Faltou algo de essencial no nascimento de seu filho, uma experiência irrecuperável que deixou marcas, sulcos profundos na alma de Carolina, a ponto de incapacita-la a amamentar seu bebê. Isso nos autoriza a dizer que o parto é muito mais do que o nascimento de uma criança. Muito mais do que um evento mecânico durante o qual uma criatura humana passa da condição de feto à de bebê, usando para isso uma mulher como seu canal.

Um parto não é somente um evento fisiológico na forma como entendemos hoje a fisiologia, “nada mais que” as atividades e processos vitais de um organismo (AURÉLIO: 1988, 298). Quando um objeto ou um evento não se resume em sua manifestação imediata, quando seu sentido não se esgota na compreensão que costuma ser-lhe dada, quando enfim, o significante não expressa exaurientemente o significado – então, estamos diante do símbolo.

A atitude necessária perante os símbolos é a da “fé”. É preciso confiar naquilo que não entendemos racionalmente, mas para o qual somos atraídos por uma força profunda. Não se trata de um apelo a entregar-se nos braços da irracionalidade. Os símbolos são fatores de saúde mental. Aglutinam significados, juntam, unem. A integridade psíquica tem nos símbolos seu maior instrumento de cura (Cf. Jung). Os símbolos são portas e caminhos para a consagração da realidade humana.
Quando o símbolo deixa de ser uma porta para o outro mundo, ele se torna um simulacro. Baudrillard, filósofo francês contemporâneo, cita o Eclesiastes para introduzir o conceito de simulacro: “O simulacro nunca é o que oculta a verdade – é a verdade que não existe. O simulacro é verdadeiro”. O simulacro não é reflexo de uma realidade mais profunda, nem a mascara ou deforma. O simulacro é uma forma vazia retumbante, continente sem conteúdo, cuja ausência de ser produz em nós aquela “histeria característica de nosso tempo: histeria da produção e reprodução do real. [...] O que toda uma sociedade procura, ao continuar a produzir e a reproduzir, é ressuscitar o real que lhe escapa.” (BAUDRILLARD: 1991, 33-34)

Estas palavras desesperadas confirmam que o ser humano é um ser em busca de sentido. Qualquer que seja, desde que transcenda o dia-a-dia. Seríamos uma sociedade feliz se a era da simulação que Baudrillard descreve tão agudamente expressasse o projeto humano. Por falhar seu alvo, produz a mesma sede ontológica que vivem os “primitivos” de Mircea Eliade e que os shoppings e o mercado liberal tentam ou dissimulam preencher.

Quando a experiência de consagração que o parto representa e permite não acontece porque foram cortadas suas raízes de significação - poeticamente falando: quando o parto foi desalmado - o gosto amargo da depressão, o sentimento de uma perda irrecuperável e irredimível toma o lugar da alegria vitoriosa que vem quando a vida se renova, graças à nossa própria conquista e valor. O acesso ao sagrado nutre a alma, restaurando sua vida, recarregando-a de ser absoluto. Temos então poder.

O poder é tanto maior quanto maior tiver sido a experiência de sagrado, a consagração que, como um batismo, restaura a alma em sua inteireza e plenitude.
“Chegamos à clínica do dr. Bira, em Atibaia (SP), à 1 hora da madrugada, meu marido, Lúcia (a acompanhante) e eu. Nessa altura, as contrações estavam doloridas. Fiquei no chuveiro um bom tempo, Lúcia fazia massagens, manobras e falava comigo. Apavorei-me um pouco com a sensação de ‘pirar’ na hora das dores. Achei que ia ficar louca, que ia morrer. Foi quando ouvi: ‘Cláudia, se deixe pirar, é assim mesmo. Solte-se e se deixe abrir como uma flor, solte seus preconceitos e as idéias que a estão fechando. Abra-se.’ Foi um momento decisivo para mim. Tentei me abrir e soltar antigas mazelas e me conhecer melhor; encontrei uma oportunidade. Tranqüilizou-me saber que era assim mesmo. Por volta das 3 horas da madrugada, pensei em desistir, achei que não suportaria mais a dor e que não iria conseguir. Foi então que Lúcia me disse: ‘Você já conseguiu, faltam poucos minutos e você estará com sua filha nos braços.’ Nesse momento, fui para a cadeira de cócoras (...) e em alguns minutos minha filha estava comigo. Eram 3h20. Fiquei em êxtase por dois dias inteiros. Não tomei nenhuma medicação e a anestesia não fez falta. Minha auto-estima foi às alturas. Hoje, me sinto muito mais forte, saudável e com possibilidade de enfrentar qualquer coisa na vida. Confio em mim! É isso.” (CLÁUDIA in TANESE NOGUEIRA-LESSA: 2003, 62-63)

A simbologia do parto está ligada ao acesso ao poder feminino. O empoderamento da mulher está presente em todo parto, como possibilidade intuída, busca da alma, sede de luz. O parto é decididamente um evento simbólico, ponto de contato, abertura entre mundos, acesso à realidade absoluta, vivificadora e empoderadora. O parto simbólico é o nascimento de uma nova mulher, o florescer como mulher em plenitude e sentido. O parto simbólico como mergulho na alma do mundo, onde o céu e a terra, o universal e o individual fundindo-se na experiência concreta e singular permitem a epifania do sagrado e a transmutação de todas as coisas.

Se o parto não contivesse uma forte carga simbólica, ele não estaria rodeado de tantos tabus (nas sociedades “primitivas”) e de tantos procedimentos médicos (na sociedade atual). A dor de Carolina é um grito de denúncia à forma como o parto é concebido e é tratado hoje, nos hospitais. Conforme foi sendo subtraído ao mundo feminino, o parto foi despojado de significado e valor em si (seguindo o mesmo destino das mulheres). À apropriação médica do parto corresponde o sempre mais intenso intervencionismo, paralelamente à sua dessacralização e banalização.
O banal é o que não contém sentido, o que é raso e superficial. O parto pela ótica moderna é vazio de sentido, mas cheio de possibilidades para estrear novas tecnológicas e novas manipulações. Passou a ser um campo de experimentação e de ganha-pão para os novos profissionais, que conhecem o parto somente em sua versão moderna, a de simulacro do nascimento.

O espírito competitivo em combinação maléfica com a ânsia existencial de nosso tempo produz um exército de médicos que faz o seu melhor para dar cabo ao desafio que estudaram na academia: vencer o risco inerente a todo parto, chegar antes do problema eclodir.

O parto é hoje considerado evento médico e de risco que requer obrigatoriamente a presença do médico obstetra para acompanha-lo. Este parto estudado em livro tem pouco a ver com o parto que Carolina sonhava viver e cuja perda doeu tanto. Ela não conseguiu o apoio social que Cláudia teve. Seu parto foi um fantasma de parto, o de Cláudia foi uma epifania gloriosa.

O fato do parto como símbolo estar ausente na cultura contemporânea produz a busca de muitas e muitas mulheres por uma experiência diferente daquela oferecida pela moderna obstetrícia e que, mesmo não sabendo definir com a terminologia de Eliade ou de Jung, está claramente orientada pela intuição de que o parto, com seu desafio e dor, “arrebenta a realidade” (Cf. Baudrillard) trazendo à tona algo de profundamente significativo, doador de sentido e empoderador.

** A depressão é aqui considerada como aspecto que pertence à normalidade da experiência humana. Não estou me referindo à patologia com causas orgânicas. Ressalto que, numa perspectiva de integração mente-corpo, há de se fazer estudos aprofundados e multidisciplinares para distinguir efetivamente o que é do soma e o que é da alma.

Obs.: Este texto foi extraído da dissertação de mestrado em Ciências da Religião na Puc/SP: “A carne se faz verbo – o parto de baixo risco visto pela ótica das mulheres”.

Bibliografia

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulação. Lisboa, Relógio d’água, 1991.
Dicionário Aurélio Básico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1988.
TANESE NOGUEIRA, Adriana – LESSA, Ciça. Mulheres contam o parto. São Paulo, Itália Nova Editora, 2003.�
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