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Por Carlos Eduardo de Carvalho Corrêa   
30 de Novembro de 1999
Quais são as rotinas com o recém nascido que nasce em hospital?
R: Na maioria dos hospitais, após o nascimento, o bebe será entregue ao neonatologista (pediatra). O RN é colocado em berço aquecido, aspirado-lhe a boca e as narinas, é secado e avaliado. Caso esteja bem, pode ser entregue à mãe ou seguir outras rotinas da maternidade. Poderá ser pesado e medido, identificado com pulseira com os seus dados, como peso, hora do nascimento, etc. É também pingado o colírio no olho do bebê (crede) e feita a injeção de vitamina K. Cada maternidade define suas rotinas, decidindo assim, quando mãe e bebe terão contato físico, e por quanto tempo. Das rotinas hospitalares existe alguma que poderia ser evitada?
R: Sempre que falamos em rotinas não levamos em consideração características individuais dos bebês e de suas mães, que merecem ser reconhecidas e respeitadas. Sendo assim, as atividades voltadas aos cuidados com o RN podem ser definidas à partir das necessidades reconhecidas neste bebê específico e nesta mãe, e não rotinas universais. Temos modificado o uso de vitamina K intramuscular para a de via oral. O colírio que é pingado nos olhos do RN poderá não ser usado, conhecendo o perfil das bactérias que colonizam o corpo da mãe. E no caso o bebê desenvolva conjuntivite poderemos usá-lo quando e se necessário. Para alguns bebês é ótimo o banho na sala de parto. Para outros, não. A individualização da assistência é o principal caminho para a humanização e o rompimento com as rotinas, que servem mais para organizar o atendimento da maternidade e homogeneizar a forma como se trabalha lá.

O que é APGAR?
R: APGAR é o nome de uma médica anestesista que desenvolveu um sistema de avaliação do bem-estar dos recém-nascidos (RN) baseado em freqüência cardíaca, respiração, tônus muscular, irritabilidade reflexa e cor. Cada item vale dois pontos. A maior nota é 10. A partir de 7 considera-se que o bebê está bem. Esta nota é dada no 1º e 5º minutos de vida.

Qual o melhor momento para cortar o cordão umbilical?
R: Consideramos que para o bebê, o cordão pode ser cortado quando os batimentos, as pulsações nele, cessam desde que não haja indicação para clampeamento precoce, como isoimunização Rh, risco de transmissão do HIV, e situações de risco para mãe ou bebe, quando estes necessitarão atendimento urgente.

O que é icterícia e como detectá-la?

R: Icterícia é uma alteração na coloração da pele do RN que é causada por um pigmento chamado bilirrubina, que normalmente é eliminado através do fígado para o tubo digestivo, saindo junto com as fezes. Pode ser natural ou se comportar de forma atípica, quando necessita tratamento. A necessidade de tratamento depende da intensidade, do peso de nascimento do bebê e de sua idade. Pode-se detectá-la pela observação da coloração da pele, ou de exames de transiluminação da pele, ou ainda pela dosagem no sangue. Algumas situações constituem fator de risco, como mães Rh - com o pai Rh +, mães com tipo sanguíneo O e bebes A, B. Outras situações são consideradas Como agravante, como hipoglicemia (falta de açúcar no sangue), asfixia no parto. Geralmente o comportamento é benigno, e a cura espontânea.


Por que alguns bebês precisam de banho de luz?
R: Alguns bebês ficam com o nível de bilirrubina mais alto do que o esperado. Estes irão precisar de banho de luz como tratamento. A luz transforma a bilirrubina numa forma que poderá ser excretada pelo fígado no tubo digestivo, saindo com as fezes. Algumas vezes é possível saber o porquê dos níveis aumentados além do normal, e muitas vezes não.

Você aconselha a fazer o teste do pezinho ainda no hospital?
R: Acho que o exame do pezinho pode ser feito mais tarde, na 1ª semana de vida, quando o bebê estiver menos estressado com seu parto, desde que haja condições para a mãe retornar com uma semana de vida, e seja de comum acordo.

Por que alguns médicos deixam os bebês em observação no berçário por algumas horas?
R: Quando os partos começaram a ser feitos dentro do hospital houve grande preocupação que os bebês e as mães ficassem bem e se criou uma classificação para os bebes baseada nos riscos que tinham de adoecerem. Chamava-se alto risco, médio risco e baixo risco. Os bebês ficavam em observação de 6 a 12 horas num berçário de normais. Recebiam água + glicose com 3 horas de vida e leite com 6 horas e eram examinados e liberados para ficarem com as mães, ou para irem mamar em horários pré-estabelecidos. Esse hábito se manteve em algumas instituições. A recomendação da OMS atual é a prática do Alojamento Conjunto Integral, desde o nascimento, para os bebês que nascem e estejam bem.Isto significa mãe e bebês juntos, desde o parto até a alta.

No berçário existe alguma diferença entre os bebês que nascem de parto normal e de parto cesárea?
R: Antigamente os bebês que nasciam de parto cesárea ficavam mais tempo em observação no berçário de bebês normais. Hoje, como não se orienta essa observação para os bebês normais, não há diferença. Ambos os bebês, os de cesárea e os de parto normal devem ficar com suas mães.

Como avaliar se uma UTI Neonatal está em condições de cuidar de um bebê prematuro?
R: Não acho fácil esta avaliação. Divido em pré-requisitos:
· Recursos humanos: pessoal treinado e em número suficiente (às vezes as equipes são menores que a necessária para uma UTI).
· Equipamento de qualidade que permita um cuidado qualificado.
· Tecnologia apropriada, como por exemplo, método mãe canguru para prematuros.
· Área física adequada.
· Permissão para a presença da mãe e do pai durante a internação do bebê.
Acho que minha resposta pode ser um tanto vaga para quem não é da área, mas pode-se solicitar estas informações junto à maternidade e tentar conversar com as mães dos bebês internados nela.

Em quais situações são necessários maiores cuidados com o recém nascido na sala de parto?
R: Quando o bebê, durante o trabalho de parto, está com falta de oxigênio, de açúcar/glicose; poderá demonstrar isso apresentando alterações na freqüência cardíaca, do tipo desacelerações. Se a capacidade de se recuperar é boa, é sinal que sua vitalidade está mantida. O bebê está bem. Caso a capacidade de recuperação não seja boa, demonstra que o bebê poderá precisar de atendimento ao nascimento. Poderá necessitar de oxigênio, que será oferecido através de pressão nas vias aéreas do bebê. Quando o bebê faz cocô/mecônio dentro da barriga, poderá necessitar que este líquido com mecônio seja aspirado, seja removido de seus pulmões através da aspiração. O nascimento é a transição de uma situação na qual o bebê depende exclusivamente do corpo materno para desempenhar suas funções, para uma nova situação aonde deverá por si mesmo respirar e obter oxigênio, se alimentar e manter constante seu nível de glicose no sangue, e todas as transformações necessárias à vida extra-uterina. Sempre que houver dificuldades neste processo adaptativo, haverá necessidade de atuação do neonatologista.

Gêmeos precisam receber cuidados maiores? Quais?
R: Dentro do princípio que utilizamos para definir situação de risco, gêmeos poderão ser encaixados como bebês que poderão precisar de mais cuidados por poderem ser prematuros, por apresentarem crescimento desigual intra-uterino. Acho que também é bom lembrar que para as mães poderá ser mais difícil atender a mais de um bebê, o que por si só significaria maiores cuidados.

Qual a diferença de tratamento, de um recém nascido em um hospital e o que nasce em casa?
R: Acho que se o bebê é normal e não precisa de intervenções não há diferença.

É sempre necessário pingar o colírio no bebê quando ele acaba de nascer?

R: É uma lei que obriga que isto seja feito. Não é necessário do ponto de vista dos estudos científicos. O que temos feito, é que quando é possível, a mãe faz um exame para saber as bactérias que fazem parte da sua flora vaginal. Neste caso, não pingamos o colírio, e se o bebê desenvolve inflamações nos olhos o usamos como tratamento. O motivo para existir esta lei é o “risco” de conjuntivite gonocócica, quando a gonorréia era freqüente. Por isso, atualmente não precisamos fazer uso do colírio rotineiramente.

O recém nascido precisa tomar banho assim que nasce?
R: Não é necessário que tome banho assim que nasce e se pudermos adiar o banho para mais tarde acho mais tranqüilo para o bebê. Quando este mostra sinais de stress ao nascimento e não melhora no colo da mãe, podemos dar um banho de imersão com o bebê enrolado em panos, na sala de parto, para relaxá-lo. Tentamos reproduzir o ambiente intra-uterino, usando água quente (36 ºC), movimentação restrita pelo pano enrolado, silencio e escuro. Mas caso esteja tudo bem, o melhor é o colo de mãe e amamentação na sala de parto.

Como cuidar do umbigo do recém nascido?

R: A parte do umbigo que se liga à pele, a geléia, deve ser limpa no banho com água e sabão e após, deve-se passar algodão molhado com álcool a 70%. Pode-se fazer a limpeza a cada troca de fraldas. É bom que o umbigo fique por fora da fralda.

A cada quanto tempo é preciso amamentar um recém nascido?
R: O bebê deve ser amamentado quando ele pede ou quando a mãe sente sinais no seu corpo que está na hora de amamentar. Chamamos de livre demanda. Geralmente os horários e os tempos das mamadas podem variar. Há dias com mais mamadas, sendo estas longas, outros com mamadas curtas. Não é comum que o bebê seja um reloginho no começo. De qualquer forma, a tendência do bebê é estabelecer um ciclo e um ritmo das mamadas, podendo este variar ao longo de seu crescimento. Eu diria que observamos comportamentos comuns a mais de um bebê, mas é muito difícil estabelecer um comportamento normal. Cada bebê tem seu jeito de ser e de mamar. Caso ele seja doente ou esteja passando por uma situação especial, como baixo ganho de peso, aí sim será necessário definir estes limites.

Como dar banho no recém nascido? Que tipo de sabonete e xampu usar?

R: Temos dado banho no bebê logo antes do horário em que esperamos que ele durma. Isso normalmente significa banho noturno. Envolvemos o corpo do bebê numa toalha, a água deve ser farta, muita água, para podermos emergir o bebê. A temperatura deve se ajustar à estação do ano. Quando o objetivo é relaxamento mais calor é melhor (temperatura semelhante ao do corpo materno, 36 ºC). Após envolver o bebê, o banho começa na cabeça com qualquer xampu neutro. Depois fazemos a imersão do bebê enrolado na água e vamos tirando os panos aos poucos, lavando seu corpo. Devemos evitar dar banho com o bebê com a barriga para cima, com o bebê tendo seu braço na região da coluna torácica, forçando assim a coluna a uma extensão que gera mal-estar nos bebês.É melhor apoiá-lo no peito, com a barriga para baixo.

Qual a melhor posição para deixar o bebê dormir?
R: A observação do bem estar do bebê é importante para tentarmos entender se há e qual é a melhor posição para o bebê dormir. Caso ele não tenha sua preferência, temos procurado deixar o bebê de lado. Barriga para baixo tem sido associado a uma situação conhecida como Morte Súbita, que é pouco freqüente, mas grave, porém protegeria de aspiração de leite caso houvesse refluxo. Gostaria de dizer que quando o bebê estabelece uma preferência é difícil mudá-la, e isto deve ser valorizado. Alguns bebês que sofrem com seu refluxo, irão precisar dormir com a cabeça e tronco elevados, mais altos que o abdômen, para tentar reduzir este refluxo. Será necessário fazer um rolo com lençol que envolva o bebê, simulando um útero ao seu redor, para que este permaneça nesta posição.

É comum as meninas recém nascidas terem corrimento?
R: É muito comum que as meninas tenham uma secreção mucosa em pequena quantidade na vagina nos primeiros dias. Quando houver um corrimento, em grande quantidade e/ou com cheiro forte, é melhor ser vista pelo médico. Mas muco em pequena quantidade é normal. Pode haver presença de pequena quantidade de sangue junto com o xixi, geralmente visto na fralda. Um pequeno sangramento, como um fluxo menstrual também pode acontecer. Se estes forem auto-limitados, começam e terminam sem que haja necessidade de intervenção, são comuns e considerados normais.

Quais as posições são mais adequadas para amamentar?
R: A mulher determina a melhor posição para amamentar, assim como para ganhar seu bebê. Como a amamentação é pouco freqüente, muitas mulheres não conhecem posições diferentes e acho muito importante que mostremos outras posições na maternidade, como posição invertida, cavalinho, bebê deitado sobre a mãe, etc. Na situação aonde há fissura/ferida na mama – ao mudar de posição, podemos gerar alívio pelo fato do bebê não manter a língua e os lábios sobre a ferida. Outra condição freqüente é a das mamadas noturnas, que são menos cansativas, ficando o bebê deitado na cama, ao lado ou sobre a mãe. Acho importante que a mulher experimente várias formas de posicionamento e faça sua opção.

O que é melhor não comer durante a amamentação?
R: Durante a amamentação a mãe deve manter seus hábitos alimentares e observar suas aversões e seus desejos alimentares. Na maioria das vezes não é possível fazer uma relação direta entre o que a mãe consome e a cólica no RN.
Houve dois casos em que foi possível fazer esta relação: uma mãe que não gosta de feijão, porém, resolveu acrescentá-lo à dieta, visto que é rico em ferro. Com isso sua filha passou a ter “cólicas”; o desconforto abdominal da mãe se repetiu na filha. Outra situação, mãe e pai, ambos com histórico de alergia a leite de vaca: quando a mãe consumia leite ou derivados o filho apresentava “cólicas”, que melhoravam ao suspender o uso do leite e derivados. A maioria das culturas tem seus tabus a este respeito e é bom conhecê-los. Mas o mais importante é valorizar seus desejos e aversões.

É verdade que bebês grandes precisam mamar mais?
R: Alguns bebês quando nascem necessitam de um período de adaptação maior para se sentir bem, sem ter que depender do corpo de suas mães para receber oxigênio, calor, glicose, etc. No caso do bebê grande, o nascimento pode causar uma queda grande nos níveis de açúcar no sangue, o que gera hipoglicemia (falta de açúcar). Nos bebês grandes, caso seu tamanho se deva a uma oferta aumentada de açúcar na gravidez, as mamadas logo após o parto poderão protegê-los de uma possível falta de glicose. Isto pode acontecer também com bebês pequenos, prematuros, que sofreram asfixia. Nestes bebês é solicitado o controle do dextro (avaliação de taxa de açúcar sanguíneo) para definir a necessidade de sua reposição através do leite ou de soroterapia.


Carlos Eduardo de Carvalho Corrêa
Pediatra Neonatologista
Colaborador da ONG Amigas do Parto
 
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