| O papel da parteira na equipe de profissionais. Empoderando os diversos profissionais |
|
|
|
| Por Vania Sorgatto Collaço e Joyce Green Koettker | |
| 25 de Julho de 2010 | |
|
Mulheres desempoderadas são uma lástima para a sociedade e uma tragédia para si mesmas. Como chegamos a isso? Não rever nossa história social e pessoal é fazer do slogan “protagonismo da mulher” uma fórmula superficial a ser colada como uma etiqueta no avental desconfortável da parturiente quando esta entra em sala-parto com nas mãos seu plano de parto, na cabeça suas idéias “libertárias” e no coração o vazio de uma história não resgatada, inconsciente e solitária.
Não há gravidez nem parto sem risco. Esta é uma verdade científica da qual parecem esquecer - ou propositadamente ignorar - aqueles que têm incentivado o retorno do parto domiciliar. Dar à luz em ambiente familiar, com assistência apenas de uma parteira, é proposta que alimenta o imaginário de muitas mulheres, pois era assim que funcionava no tempo de suas avós ou Estudos internacionais mostram que 10% dos recém-nascidos necessitam de algum procedimento especializado no momento do parto para iniciar a respiração e 1%, de medidas bastante agressivas para sobreviver. Nesses casos, o tempo para o atendimento adequado, especializado, que poderá salvar o recém-nascido é de segundos, na maioria das vezes. Dos cinco milhões de recém-nascidos que morrem anualmente, cerca de um milhão são vítimas de asfixia intra-útero ou no momento do parto. Os que sobrevivem à asfixia podem ter seqüelas neurológicas irreversíveis, deficiências escolares e outros problemas de comportamento. Da mesma forma, a hipoglicemia - presente também em recém-nascido fruto de gravidez aparentemente sem risco - pode levar à morte ou a lesões encefálicas irreversíveis. É importante também ressaltarmos as complicações maternas, principalmente hemorragias durante e após o parto. Os dois casos exigem atendimento especializado quase imediato, o que é impossível no parto domiciliar. Por isso, mesmo as gestantes de baixo risco devem ter partos em instituições hospitalares tradicionais, como diz a recomendação científica internacional, e na presença também do pediatra, como determinam a portaria do Ministério da Saúde e resolução do Cremerj. A intenção é clara: garantir às mulheres e bebês um atendimento de qualidade e amparado na ciência e tecnologia que o avanço da medicina nos oferece. Não se questiona aqui a opção preferencial pelo parto normal. Mas a normalidade não significa que o procedimento deva ser feito na residência da gestante, onde nem mesmo uma equipe treinada e equipada poderá oferecer a adequada atenção nas eventuais complicações. Ressaltamos que nesses casos a cesariana realizada oportunamente modificará favoravelmente o resultado. Por esses motivos, o Cremerj não considera humanizado um parto feito fora de ambientes hospitalares e não concorda com a posição da ANS neste sentido. Segundo a resolução criada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), em 2002, o médico não pode emitir declaração de óbito nos casos em que houve atuação de profissional não-médico. Além disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente assegura o atendimento médico aos recém-nascidos. Dessa forma, a conseqüência da medida da ANS é deixar mãe e filho em situações de risco. É bem verdade que não temos os melhores indicadores de assistência materno-infantil, mas morrem muito menos mães e bebês atualmente do que no tempo das parteiras em casa. Até meados do século passado, morriam 150 mulheres a cada 100 mil partos com bebês nascidos vivos. Nas últimas décadas, o índice de mortalidade caiu para 51 a cada 100 mil. Ainda é muito alto - mais que o dobro do que a Organização Mundial de Saúde considera tolerável - mas a diferença representa a preservação de milhares de vidas. Isso é possível porque os avanços da ciência e da tecnologia permitem diagnósticos mais precisos e o apoio de equipamentos modernos no tratamento dos problemas médicos. Ignorar esses benefícios é um retrocesso inaceitável, que privam gestantes e recém- ***
Agora responda aos questionamentos: Cada membro da nossa equipe iniciou sua participação quando sentiu-se inteiramente entregue para esta filosofia de vida. No imaginário cultural brasileiro, as figuras de assistência ao parto se resumem a médicos, em hospitais, e parteiras, em áreas pobres do interior do país. Uma figura ainda pouco conhecida, mas que tem ganhado o reconhecimento do governo e da sociedade, é a das parteiras profissionais – enfermeiras obstétricas que atuam nas grandes cidades e vêem o parto como um evento natural, que, se estiver bem preparado e livre de complicações, pode muito bem ocorrer fora de um hospital. Como herança das parteiras tradicionais – que aprenderam o ofício na prática –, essas profissionais sabem da importância de tratar a mulher como protagonista no parto, respeitando seus desejos e aliviando as dores com conforto emocional, técnicas de relaxamento e chás. Diferentemente do que acontece na zona rural, entretanto, elas foram formadas em universidades para fazer o parto de gestantes de baixo risco e são tão capacitadas quanto os médicos obstetras para esse atendimento. Aproveitamos para citar alguns outros profissionais que trabalham no parto domiciliar e que apresentam dados bastante motivadores para quem está começando com a prática ou que estão pensando em começar: no Brasi: Heloisa Lessa, Cláudia Orthof, Marilanda Lima, Vilma Nishi, Márcia Koiffman, Ricardo Jones e Neusa Jones, Pedrão, Priscila Colacioppo e de outros países: Ina May Gasking, Mary Swart, Naoli Vinaver Lopez, entre outros. Encorajamos vocês a pesquisarem sobre os serviços dos profissionais acima citados para que obtenham cada vez mais sucesso na sua prática assistencial. Para vocês iniciarem a busca por profissionais que sejam referência no atendimento ao parto junto com a equipe profissional, aprofundaremos aqui algumas destas brilhantes mulheres: Naolí é parteira tradicional e profissional mexicana com 17 anos de experiência em atendimento do parto domiciliar. É uma das principais ativistas do movimento do parto natural no México e conferencista internacional. É antropóloga de formação e autora do livro "Um Bebê Nasce...Naturalmente" (editorial Mercuryo Jovem), assim como de dois vídeos/documentais sobre o parto e nascimento: "Dia de Nascimento" e "O Mundo Nasce ao Ritmo do Coração". www.nacimientonatural.com. Ela combina a prática do parto tradicional com um profundo interesse e respeito pela psicologia e a fisiologia do parto. Em suas conferências fala da importância em resgatar o aspecto sexual do ciclo da gravidez, parto e puerpério. Para Naolí o protagonismo da mulher não se desvincula daquele do bebê. O que implica em duas coisas: primeiro, que o tempo e o ritmo do bebê devem ser respeitados, pelos profissionais assim como pelas mães. Surge inevitável a pergunta: é ético e respeitoso retirar um bebê de seu mundo uterino antes que ele tenha dado sinais de que está pronto e querendo sair? Não seria uma relação de violência. Nas “relações de gênero” o poder está distribuído de forma desigual, entre homens e mulheres. No nosso caso, ocidental, branco e cristão: o poder está em mãos masculinas, e masculinas são também as qualificações que têm valor. As mulheres permitem que se faça conforme a vontade deles. Elas seguem um modelo externo a si próprias, traindo sua inteireza e sabedoria. Ela aponta que a mulher abdica de sua energia e precisa então de alguém que lhe diga como parir. Isso é tão absurdo, como seria receber instruções sobre como namorar, fazer amor... Mulheres desempoderadas são uma lástima para a sociedade e uma tragédia para si mesmas. Como chegamos a isso? Não rever nossa história social e pessoal é fazer do slogan “protagonismo da mulher” uma fórmula superficial a ser colada como uma etiqueta no avental desconfortável da parturiente quando esta entra em sala-parto com nas mãos seu plano de parto, na cabeça suas idéias “libertárias” e no coração o vazio de uma história não resgatada, inconsciente e solitária. Mais uma vez, fica evidente que o parto não é uma questão de ego. Transcende e extravasa para algo místico e mais profundo. O que é preciso resgatar no parto é a força da vida em ação, da vida ao vivo. As mulheres precisam aprender a se (re)conectar com o poder pulsante, alegre, sério e profundo da vida que respira em cada contração e que goza a cada nascimento. Para isso, deve enraizar-se em si mesma, a custo de encontrar experiências doloridas, cicatrizes e marcas de um passado opressor. É com a carne que parimos e esta precisa ser resgatada das cadeias que uma cultura secular baseada no masculino cerebral, abstrato e moralista aplicou, cultura refletida na criação e na educação que todas nós recebemos em casa, nas escolas, pela TV e pelo mundo afora. Ela diz que o parto só deve ser feito por médicos em caso de gestação de risco. Lembra também que os médicos são educados para curar, e nós, parteiras, para cuidar. Com as maternidades cada vez mais equipadas e as tecnologias voltadas para o parto em constante modernização, ter um filho sem um médico por perto pode parecer um retrocesso. Não é o que pensa a maioria das gestantes holandesas. No país que tem um dos menores índices de mortalidade no parto do mundo, 85% das grávidas são acompanhadas por parteiras - que recebem uma formação de quatro anos voltada para o parto normal, método pelo qual nascem quase todos os bebês por lá. A gravidez e o parto são um sinal de saúde das mulheres. Não são procedimentos médicos, mas uma parte da vida. Não podemos transformar algo natural em um evento médico. Sobre o parto domiciliar compara que para os mamíferos, o natural é permanecer no ninho durante o parto - e não sair dele. Mas o ninho deve ser seguro. É preciso ter uma infra-estrutura que torne isso possível: água totalmente limpa, comida adequada, o suporte de uma parteira, do médico de família ou de uma enfermeira com formação voltada para o parto. Se a mulher se sentir segura em casa, ela deve poder aproveitar essa oportunidade. Os Holandeses são conhecidos por não gostarem de gastar dinheiro com algo que é gratuito. Dar à luz em casa é o meio mais econômico de parto, e essa é a primeira escolha quando a mulher está bem. Na Holanda, 70% dos partos normais são assistidos exclusivamente por parteiras. No Brasil, onde ao menos 77% são acompanhados por médicos, o índice de mortalidade materna é dez vezes maior do que o nosso. A mortalidade de bebês é quase quatro vezes maior. Na Holanda, a parteira tem uma formação de quatro anos só voltada para a gravidez e o parto. Os médicos não têm esse tempo de educação voltado só para a mãe. Mary coloca que para as mulheres a gestação e parto envolvem medo. Um bebê compromete a vida para sempre. É normal ter medo, mas isso não deve ser pesado demais, pois, para o parto, é fatal. A gestante precisa pensar que é uma mulher madura, que pode dar à luz, que poderá fazer as coisas que gosta, mesmo com uma criança. Esse medo deve ser trabalhado durante a gravidez pela midwife. Em 2003, atendeu cinco partos em casa, em 2006 foram 42, desde que voltou de uma viagem de dois meses na Amazônia, onde isso é comum - nesse caso, por falta de opção. Ela ajudou a trazer ao mundo 144 crianças e, hoje, realiza cinco partos em casa por mês. Heloísa diz que geralmente, ter filho longe do hospital significa comprar briga com a família. "É normal a mulher que opta por ter seu primeiro filho em casa esconder de um parente ou conhecido". A grande preocupação dos familiares é com a segurança da mãe e do bebê. Nesse sentido, devemos nos cercar de cuidados. Parto em casa só deve acontecer se somente a saúde de ambos estiver em ordem, se o pré-natal não teve intercorrências e se a gravidez não for múltipla. Para Heloísa concorda que na rotina médica tradicional é complicado prever alguma emergência, mas diz que seu trabalho é diferente. "O médico não acompanha a mulher o tempo todo. Ele aparece, examina e vai embora. A gente (parteiras) fica com ela e percebe os sinais de seu corpo. Antes de qualquer emergência, acontece uma febre, um pequeno mal-estar". Para ela um sangramento significativo da mãe pode estar ligado à condição psicológica dela. "O principal motivo de hemorragia materna é o útero da mãe não contrair depois do parto. Para que ele contraia é necessário ocitocina. Quer melhor maneira de a mulher produzir esse hormônio que deixá-la junto de seu bebê logo depois de ele nascer? No hospital, eles são separados". Relata que precisou remover grávidas para o hospital sete vezes. "Todas chegaram a tempo e seus filhos nasceram muito bem." Não é uma coisa de bicho-grilo, de querer ser diferente e parir de uma maneira alternativa. São mulheres que acreditam na natureza e que, ao passarem por esse processo, estarão vivendo a feminilidade delas o mais intensamente possível." A opinião de uma das cliente de Vilma foi que o grande mérito dessa escolha nem é o parto em si, mas o pós-parto. "Poder estar com o bebê nos braços durante as primeiras horas de vida não tem preço. A minha filha conheceu os irmãos dez minutos depois de nascer e a família esteve junta nesse momento tão importante. Vilma acredita que o vínculo que foi criado ali se reflete na relação que hoje tenho com ela. Para a mesma cliente: “Nem mesmo a dor assusta: "Parecia que eu estava sendo partida ao meio, mas o que fica é uma sensação enorme de realização”. Vilma além de fazer o pré-natal, gosta de ter na retaguarda obstetra e hospital definidos, caso haja necessidade, porém não leva oxigênio e equipamentos básico para alguma emergência. "Não levo isso porque dá para prever algum problema com o bebê com tempo hábil de remover para um hospital". Iniciou e desenvolveu em 1971, na Farm, sua comunidade no Tennesse, um serviço de atendimento a gestantes. Hoje são mais de 30 anos dedicados a atender; 2.200 bebês nascidos em suas casas ou em sua fazenda. Autora do famoso clássico "Spiritual Midwifery", primeiro livro sobre o assunto lançado até então para não profissionais. Rapidamente vendeu mais de meio milhão de cópias e foi traduzido para muitas línguas. Publicou um artigo médico em que ensina uma manobra para livrar o bebê com distócia de ombro. Essa manobra, aprendida com uma parteira da Guatemala é hoje amplamente usada e foi batizada com o seu nome: Manobra de Gaskin. - número de nascimentos: 2028; 6 - O que esses relatos lhes transmitem no sentido do empoderamento profissional? |





ODIR - Diretorio de Sites do Brasil








